Professores e especialistas criticam tema da redação

A proposta do Enem foi considerada complexa, de pouco impacto e capaz de prejudicar quem não convive com essa situação

DAVI LIRA, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2012 | 02h07

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) sobre movimentos de imigração no Brasil no século 21 - que surpreendeu anteontem boa parte dos 4,17 milhões de participantes - foi considerado complexo, de pouco impacto na sociedade brasileira e capaz de prejudicar o desempenho de alunos que não convivem com essa realidade. As opiniões são de professores de cursinhos e especialistas consultados pelo Estado.

A proposta para a redação - prova que tem forte impacto na nota final do exame - trazia textos de apoio com informações sobre imigrantes do Haiti, que chegam ao País pelo Acre, e da questão dos bolivianos, que têm São Paulo como principal rota de imigração no Brasil.

"É um tema pouco frequente na mídia, e essa imigração ainda não representa um problema para a sociedade brasileira, o que torna difícil o aluno propor uma solução, como exige o Enem", afirma Lucília Helena do Carmo Garcez, especializada em provas de redação.

"Trata-se de um tema complexo para alunos do ensino médio, É difícil, inclusive, para os alunos universitários. Esse tema exige muitas questões jurídicas", diz Manuel Furriela, diretor do curso de Relações Internacionais do Complexo Educacional FMU. Furriela, que é presidente da comissão de refugiados da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP), lembra que, nos últimos cincos anos, o fluxo de imigrantes angolanos no Brasil foi bem mais intenso que o de haitianos.

Sobre a emigração latino-americana ao Brasil, a presença de bolivianos não representa o maior fluxo populacional no País, afirma Alberto Pfeifer, membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo (USP). "Trata-se de um grupo recente. Os principais contingentes de imigrantes latinos são de uruguaios, argentinos e chilenos que vão para a Região Sul e São Paulo", diz Pfeifer.

"Esse tema da imigração acaba fugindo das expectativas. Antes o Enem abordava temáticas com maior impacto no cenário nacional", afirma Eclícia Pereira, professora de redação do cursinho da Poli em São Paulo.

Para Fernanda Bérgamo, também professora de redação, mas no Recife, o tema escolhido foi um "verdadeiro absurdo" e teria um potencial excludente. "Os estudantes acreanos e paulistas, por exemplo, podem perceber essa realidade de imigração mais facilmente. Nos demais Estados não se tem essa vivência", diz.

Em defesa do tema, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, afirmou ontem em Brasília, que a prova de redação teve "um tema bastante contemporâneo, desafiador e não previsto. Porque as pessoas não podem só trabalhar com o previsível, é a formação abrangente que permite responder com criatividade e consistência."

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