Proibido Fumar, permitido agradar

Comédia de Anna Muylaert dá um banho nos concorrentes e conquista os principais prêmios ao rimar diversão com reflexão

Luiz Zanin Oricchio, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2009 | 00h00

É Proibido Fumar, a comédia politicamente incorreta de Anna Muylaert, consagrou-se como a grande vencedora do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Além do Candango de melhor filme, recebeu os de atriz (Glória Pires), ator (Paulo Miklos), atriz coadjuvante (Dani Nefussi), roteiro, montagem, trilha sonora, direção de arte e prêmio da crítica. Foi um banho. O filme vencedor tem pré-estreia hoje, às 21 h, no Cine Bristol e entra em cartaz no circuito comercial dia 4 de dezembro.

Tem tudo para agradar ao público, pelo menos aquele tipo de plateia que espera alguma coisa além de hora e meia de entretenimento que depois se esquece rapidamente. É Proibido Fumar oferece diversão e também reflexão. Na saída da premiação, a diretora Anna Muylaert conversou com o Estado e se disse confiante de que a consagração em Brasília irá ajudar na carreira do filme. "Isso aconteceu com meu primeiro longa-metragem, Durval Discos, que nem tinha distribuição garantida, mas depois de vencer o Festival de Gramado, conseguiu encontrar seu público."

Quem também estava emocionada era Glória Pires, que fez força para não chorar no palco ao receber sua estatueta de melhor atriz. "Já fiz vários papeis no cinema, mas este é o primeiro prêmio em festival que recebo", disse, com voz embargada. Na chegada ao hotel, Glória conversou com a reportagem do Estado. Segurava sua estatueta com o cuidado de quem ampara um bebê de colo. "Este prêmio é muito precioso para mim, mas o mais importante é que deve ajudar o filme da Anna", disse. É isso: terminadas as emoções desencontradas e solavancos de um festival de cinema, a vida segue e o vencedores e perdedores têm de fazer o seu caminho. É no que todos pensam quando a cerimônia se encerra. Afinal, o destino de uma obra é mesmo o público.

Para encontrá-lo, É Proibido Fumar conta a história de uma professora de violão solteirona (Glória), que vive um complicado caso de amor com seu novo vizinho, o músico Max (Paulo Miklos, dos Titãs). A história começa como comédia rasgada, depois muda de rumo e cria suspense na plateia. Seu desfecho, subversivo do ponto de vista ético, causou alguma polêmica entre os espectadores, mas mesmo esse traço provocativo poderá jogar a seu favor. Anna disse que seu desafio era fazer um filme que pudesse se comunicar melhor com o público, sem perder a densidade do seu primeiro trabalho, Durval Discos. É Proibido Fumar tem sal e tempero, além de inteligência. Qualidades muito em falta em nossa época insossa e neopuritana. Por isso, sensibilizou o júri.

Apesar da consagração de É Proibido Fumar, alguns prêmios importantes sobraram para os outros concorrentes: o Prêmio Especial do Júri e o Júri Popular foram para Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano, do diretor Henrique Dantas, sobre o grupo musical Novos Baianos. Num dos grandes momentos da noite, o músico e cantor Moraes Moreira subiu ao palco do Cine Brasília para receber o prêmio com o elenco. Comemorando, com a bandeira do Bahia (que escapou ao descenso para a 3ª divisão), Moraes puxou o coro com a plateia com um dos seus maiores sucessos, a música Preta Pretinha. O cinema veio abaixo. Mais ainda quando ele declarou que "o sonho dos Novos Baianos, que começou tantos anos atrás, ainda não terminou". Para uma plateia predominantemente jovem, esse tipo de frase soa como Mozart para ou ouvidos.

Filhos de João apostou na chave da alegria e foi recompensado. Em outro registro, mais reflexivo e poético, o documentário Quebradeiras também foi bem lembrado. Levou os prêmios de direção (Evaldo Mocarzel), fotografia (Gustavo Hadba) e som. Justo reconhecimento a esse ensaio etnopoético sobre as quebradeiras de coco-babaçu do Bico do Papagaio, entre os Estados do Maranhão, Pará e Tocantins.

Já O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Moraes, recebeu apenas o troféu de ator coadjuvante, para Bruno Torres. Perdão, Mister Fiel e A Falta Que me Faz ficaram sem qualquer reconhecimento do Júri Oficial. No primeiro caso, tomou-se a decisão correta, pois esse documentário sobre o assassinato do operário Manoel Fiel Filho no Doi-Codi, em 1976, era de fato o título mais fraco do festival, um equívoco da comissão de seleção. Mas o esquecimento de A Falta Que me Faz, de Marília Rocha, não se justifica e foi o grande pecado do júri, que não poderia ter se omitido diante de documentário tão belo, poético e inovador quanto esse. Pena. Mesmo porque, o filme, que mostra o cotidiano de quatro moças de Curralinho, na região de Diamantina, não é daqueles que têm fácil aceitação pelo mercado exibidor. Por isso mesmo, precisa mais do reconhecimento dos festivais que outros filmes.

O anúncio do prêmio de melhor curta-metragem foi a grande surpresa da noite. Quando todos esperavam que Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho, consagrado depois de já ter recebido inúmeros prêmios, fosse também faturar o principal, o de melhor filme, anunciou-se o grande vencedor: Ave Maria ou a Mãe dos Sertanejos, de Camilo Cavalcante. O de Kleber impressiona mais, com sua ironia inteligente, aliada à crítica social. Mas Ave Maria capta o sentido profundo da poesia sertaneja, com belas imagens, quase pinturas de rostos esculpidos pelo sol. Por isso, o prêmio não lhe cai mal. Pelo contrário.

A cerimônia no Cine Brasília (em geral ela se dá no Teatro Nacional) foi precedida da exibição do curta Brasília, Capital do Século, de Gerson Tavares, e do longa Brasília, A Última Utopia, de vários diretores. Preparação, sem dúvida, para as comemorações de 2010, quando a Capital Federal completa 50 anos. Cerimônia enxuta, que teve momentos de emoção, alegria e também de baixaria, que, parece, nunca pode faltar. Deu-se quando o diretor de Perdão, Mister Fiel, o jornalista Jorge Oliveira, ignorado pelo júri oficial, subiu ao palco para apanhar seu Troféu da Câmara Legislativa do DF. Vaiado, proclamou que não fizera o filme para "o público alienado, analfabetos políticos ou a crítica imbecilizada". O problema é que, com o prêmio em dinheiro, talvez ele resolva fazer novo filme. E levá-lo ao festival.

Tirando a omissão com A Falta Que me Faz, não se pode fazer grande reparo à premiação. Foi um bom resultado, digno de um belo festival. Brasília, que no ano passado fez uma das piores edições de sua história, em 2009 recuperou-se. Agora precisa avançar e reconquistar seu espaço como o mais importante dos festivais brasileiros - afinal, foi criado em 1965 por Paulo Emílio Salles Gomes, e isso quer dizer muita coisa. Para isso, precisa batalhar e conseguir os concorrentes mais representativos da produção nacional, inclusive entre os filmes de ficção, os mais disputados pelos festivais.

O repórter viajou a convite da organização do festival

Os Vencedores

MELHOR FILME (júri oficial): É Proibido Fumar, de Anna Muylaert

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas

PRÊMIO JÚRI POPULAR: Filhos de João, admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas

MELHOR DIREÇÃO: Evaldo Mocarzel (Quebradeiras)

ATOR: Paulo Miklos (É Proibido Fumar)

ATRIZ: Glória Pires (É Proibido Fumar)

ATOR COADJUVANTE: Bruno Torres (O Homem Mau Dorme Bem)

ATRIZ COADJUVANTE: Dani Nefussi (É Proibido Fumar)

ROTEIRO: Anna Muylaert (É Proibido Fumar)

FOTOGRAFIA: Gustavo Hadba (Quebradeiras)

DIREÇÃO DE ARTE: Mara Abreu (É Proibido Fumar)

TRILHA SONORA: Márcio Nigro (É Proibido Fumar)

SOM: Miriam Biderman, Ricardo Reis e Ana Chiarini (Quebradeiras)

MONTAGEM: Paulo Sacramento (É Proibido Fumar)

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