Projeto de d. Odilo para a universidade determinou escolha

Bastidor: José Maria Mayrink

O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2012 | 02h07

Ninguém contesta a prerrogativa que o cardeal-arcebispo d. Odilo Scherer tem, como grão-chanceler da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de escolher para reitor qualquer um dos nomes da lista tríplice que lhe foi apresentada. O que causa estranheza, uma reação aliás prevista por ele, é que tenha optado pela nomeação da professora Anna Maria Marques Cintra, última colocada na apuração dos votos de professores, funcionários e alunos da instituição. O cardeal alega, segundo sua assessoria, que simplesmente seguiu o estatuto da mantenedora, a Fundação São Paulo, sem necessidade de se justificar. Mesmo que ele não fale nada, é possível levantar algumas conjecturas.

É sabido no câmpus de Perdizes que o cardeal não gostou da gestão do reitor Dirceu de Mello, cujo nome havia ratificado, quatro anos atrás, quando ele encabeçava a lista tríplice dos candidatos mais votados. Nesse período, lembra um veterano docente da PUC, a instituição perdeu dinheiro, alunos e visibilidade. Nada pessoal da parte de d. Odilo, tanto assim que agradeceu a dedicação do reitor, ao dispensar seus serviços.

A preferência por Anna Cintra, que passou à frente também do professor Francisco Serralvo, o segundo colocado, teria uma explicação plausível: dos três concorrentes, é a mais afinada com o projeto do cardeal para a PUC, de seguir a linha traçada pela mantenedora, que hoje teria mais poder do que a reitoria.

Por projeto do cardeal entenda-se a concepção que tem de uma universidade católica obediente à orientação do Vaticano - exigência do título de pontifícia dado pelo papa, o Sumo Pontífice de Roma. É bom lembrar, nesse contexto, medida tomada por d. Odilo, como grão-chanceler, ao estabelecer os critérios para escolha dos professores da Faculdade de Teologia da PUC. Além de afastar os ex-padres, ou sacerdotes que abandonaram o ministério, mas continuavam lecionando, o cardeal exigiu que os docentes tivessem título de teólogo homologado pelo Vaticano. Não basta ter um diploma aprovado pelo Ministério da Educação, com o qual também professores de outras confissões cristãs poderiam ensinar Teologia.

D. Odilo poderá ser acusado de ter atropelado a democracia, ao menosprezar o candidato mais votado da lista tríplice, mas não parece que o arcebispo de São Paulo tenha agido por razões ideológicas. A comparação com seus antecessores, os cardeais d. Paulo Evaristo Arns e d. Cláudio Hummes, ambos eméritos ou aposentados, é uma tentação, mas não faz sentido. Mesmo aqueles que estranham a atitude de d. Odilo e tentam adivinhar seus critérios, reconhecem que, pelo estatuto, ele tem o direito de optar pela nomeação da última da lista.

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