Projeto melhora escolas da capital

Tutoria a professores e a criação do cargo de 'coordenador de pais' geram resultados

Luciana Alvarez, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2010 | 00h00

A coordenadora de pais Emilene Ribeiro com alunos da escola estadual Haydée Hidalgo

 

Com medidas simples e de baixo custo, um projeto-piloto está conseguindo melhorar o ensino em algumas das escolas estaduais com os piores desempenhos no Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp) de 2008. Há um ano e meio o programa oferece tutoria a professores de matemática e língua portuguesa e criou o cargo de "coordenador de pais" em dez escolas da zona leste da capital paulista.

 

Das dez escolas participantes, quatro atingiram ou ultrapassaram as metas do governo para o Idesp de 2009 em todos os níveis e cinco melhoraram o desempenho, mas ficaram abaixo da meta em uma ou mais séries. Só um colégio não melhorou os resultados. A experiência, uma parceria da Secretaria Estadual da Educação com o Itaú Social e o Instituto Fernand Braudel, tem duração prevista de três anos. Ao final, o projeto deve ser sistematizado para que possa ser replicado em outras escolas.

 

Mesmo sem a avaliação de impacto completa, que será feita apenas ao fim dos três anos, os responsáveis comemoram os sinais positivos. "Havia o mito de que um professor não aceitaria a intervenção de outro dentro de sua sala de aula. Hoje, 80% aderiram - o professor tem liberdade para escolher se quer receber a tutoria - e temos demandas de professores de outras áreas", afirma Isabel Santana, gerente do Itaú Social. "Isso prova que o professor está aberto para receber ajuda, que ele quer dar boas aulas. Tivemos até de aumentar o número de tutores."

 

Atualmente, dividem-se entre as dez escolas três tutores de português, três de matemática e outros dois que apoiam o professor coordenador de cada unidade. Com isso, os tutores garantem atendimento aos docentes uma ou duas vezes por semana. Os tutores observam as aulas, ajudam a planejar atividades e sequências didáticas, conduzem aulas conjuntas e participam das reuniões pedagógicas.

 

O professor de português Rodnilson Luiz Ferreira recebeu tutoria durante todo o ano de 2009 e desde o início deste ano também está atuando como tutor em outras três escolas. "Sempre encarei como um apoio. Quando tenho uma dúvida, uma dificuldade, encontro no tutor um parceiro", conta. "A gente discute o assunto e volto para a próxima aula com outra visão do tema."

 

Ferreira reconhece que alguns colegas resistiram à ideia no princípio. "Teve professor que pensou que seria vigiado, mas hoje a aceitação é bem grande."

 

O tutor Valdimir Araújo Filho diz que uma das vantagens do modelo é que ele se integra à rotina escolar. "Nós não tiramos o professor do seu ambiente e seus horários. Procuramos nos integrar à equipe da escola e, com isso, eles percebem que estamos contribuindo." Araújo ressalta que o trabalho e o aprofundamento de estudos que os tutores estimulam estão de acordo com os parâmetros curriculares oficiais do Estado de São Paulo. O programa conta ainda com o respaldo da diretoria regional de ensino Leste 3.

 

Coordenador de pais. O segundo eixo do projeto-piloto tem como base um funcionário da comunidade, que auxilia na comunicação entre a direção das escolas e as famílias dos estudantes. O coordenador de pais vai diariamente à escola, promove atividades extra para envolver a todos no colégio e ainda faz visitas domiciliares quando necessário.

 

A coordenadora de pais Emilene dos Santos Ribeiro, da escola estadual Haydée Hidalgo, já andou por uma hora até a residência de um aluno que faltava muito. "Ele dizia que morava longe. Fui ver se era longe mesmo, para depois relatar à direção", diz Emilene. "Pedimos a transferência dele para uma escola mais próxima, mas, enquanto não sai, convencemos a mãe que ele tem de vir. E ele não falta mais."

 

Em um bairro muito pobre, a escola também perde muitos alunos para o mercado de trabalho. "É comum eles arranjarem emprego e largarem a escola. Tento incentivar, mostrar que a escola deve ser o primeiro plano."

 

Emilene orgulha-se ao citar casos de estudantes que chegam em casa à 0h30 do trabalho, mas não perdem aula na manhã seguinte, assim como ao falar de um ex-aluno que cursa engenharia civil. "É bom ver que ele progrediu, que está melhorando."

 

O trabalho da coordenadora de pais tem apoio da direção e da comunidade. "Um dos nossos grandes problemas eram as faltas, pois o aluno perde conteúdo, sequência e não consegue aprender como deveria. Atualmente, as faltas caíram muito", diz a diretora da escola, Marlene Galindo.

 

Marlene relata que a comunicação com os pais melhorou. "Se abre um buraco na rua, se falta luz nos postes, as mães achavam que a diretora tinha de resolver", afirma. "Esse trabalho tem feito a diferença."

 

Zumira dos Santos Pontes, mãe de Cleyton, de 16 anos, também só tem elogios para a nova função. "Hoje, se tem reunião na escola, sei que é importante e peço licença no trabalho", diz.

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