Projeto tenta reabrir estrada que corta parque ao meio

Via foi fechada em 2001 por ordem da Justiça, por ameaçar a unidade de conservação e a segurança na fronteira

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h05

O alerta de redução do número de onças no Parque Nacional do Iguaçu foi feito em um momento em que o parque passa por uma discussão vista por muitos ambientalistas como uma nova ameaça: a possibilidade de reabertura da estrada do Colono.

Com 18 quilômetros, ela cortava ao meio o Parque Nacional do Iguaçu, no oeste do Paraná. Foi fechada em 2001 por ordem da Justiça Federal, por ameaçar a integridade do parque e a segurança nacional pela proximidade da tríplice fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai. Desde então, foi praticamente tomada pela vegetação nativa.

Um projeto de lei do deputado federal Assis de Couto (PT/PR), que está na pauta da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e deve ser votada no retorno do expediente em agosto, estabelece a reabertura do trajeto como uma “estrada-parque”. Segundo ele, seria algo diferente do que era no passado. “Não poderá passar caminhão, não será asfaltada, os carros serão fiscalizados”, diz.

Para os pesquisadores que trabalham no local, a reabertura trará riscos ao ambiente. “A gente não vê mais indícios de que naquele local havia uma estrada. A área foi recuperada. Se reabrir, vai dividir a unidade em duas. Além de causar um efeito de borda (a vegetação que fica, como o nome diz, na borda de um corredor ou fragmento é mais afetada pelas perturbações externas), a estrada pode trazer todos os agravantes do fluxo de pessoas, além de mais caçadores”, afirma Ronaldo Morato, do ICMBio.

Marina Xavier, que identificou as onças do parque com as armadilhas fotográficas, conta que, durante o monitoramento, foram observados dois novos indivíduos que nunca tinham sido vistos antes – e bem no local onde passaria a estrada. “Provavelmente são dois animais que nasceram no parque sem o nosso conhecimento, o que é um sinal bom, de que a população está se reproduzindo. Mas justo quando vemos um indicativo de recuperação, surge uma nova ameaça.”

Um grupo de ONGs, entre elas SOS Mata Atlântica, WWF, Instituto Socioambiental e Greenpeace, enviou uma carta à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e à União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), alertando para o perigo. O parque é reconhecido desde 1986 pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade e como uma das Novas Sete Maravilhas Naturais do Mundo.

“O autor do projeto aponta que a estrada promoverá preservação, educação ambiental e o desenvolvimento sustentável regional, enquanto estão amplamente registrados e compreendidos os impactos de estradas sobre áreas protegidas”, escrevem.

Em evento no Fórum Mundial de Meio Ambiente, realizado no final de junho em Foz do Iguaçu, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que a proposta de reabrir a estrada é inaceitável. “Não é abrindo uma estrada, que não tem apelo nenhum do ponto de vista do turismo, que vamos viabilizar uma renda adicional para os municípios, segundo o argumento que se coloca.”

Para Costa, a estrada tem um papel ambiental. “O crime só acontece porque as pessoas não passam por aqui, a fiscalização tem de dar uma volta enorme para chegar. A caça vai diminuir com a estrada. As pessoas vão se autofiscalizar”, diz.

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