Proteína pode gerar um novo antigripal

Em camundongos, uma proteína sintética agiu como uma espécie de 'droga do dia seguinte' que preveniu a gripe

MARIANA LENHARO, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2012 | 03h05

Uma proteína desenvolvida em laboratório que imita um componente natural do sistema imunológico pode se tornar mais uma forma de combater o vírus influenza. Em estudo com camundongos, a administração da proteína sintética EP67 logo após a exposição ao vírus desencadeou uma resposta imune que impediu o desenvolvimento da gripe.

Para o infectologista Carlos Magno Fortaleza, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é importante aumentar o arsenal de condutas de prevenção e tratamento da gripe, hoje composto pela vacina e pelos antivirais oseltamivir e zanamivir. "Se você descobre uma substância que tem potencial de aumentar a resposta imunológica contra influenza, isso é extremamente bem-vindo", diz.

O organismo tem dois tipos de resposta imune: a inata e a adaptativa. Enquanto a resposta inata combate os invasores de maneira generalizada, a resposta adaptativa envolve a produção de anticorpos específicos para combater determinado vírus ou bactéria. A substância avaliada no estudo age diretamente na resposta imune inata, por isso teria a capacidade de derrotar todos os tipos de vírus influenza.

O EP67 foi criado para imitar a atividade da molécula C5a, que faz parte do sistema complemento, um dos braços do sistema imunológico. Os pesquisadores injetaram a proteína em camundongos que tinham sido previamente infectados com o vírus influenza. Quando administrada até 24 horas depois da infecção, a proteína impediu o desenvolvimento da gripe ou atenuou seus sintomas. O parâmetro para analisar a intensidade dos sintomas foi a perda de peso em decorrência da gripe.

O estudo, divulgado ontem no periódico científico PLoS ONE, constatou também que a substância impediu a morte de camundongos que receberam doses letais do vírus.

Prevenção. A ideia é desenvolver uma droga que possa ser administrada logo após o paciente se expor a uma situação em que o vírus influenza esteja presente. Para Joy Phillips, pesquisadora da San Diego State University e uma das autoras do estudo, a nova droga seria uma carta na manga para casos em que a pessoa que não tomou a vacina se expõe ao vírus. O recurso seria especialmente útil no caso de idosos, crianças, gestantes e imunodeprimidos.

"O vírus da gripe é sorrateiro e impede o sistema imune de detectá-lo por alguns dias, até que se começa a sentir os sintomas. Quando você descobre que foi exposto à gripe, os únicos tratamentos disponíveis atualmente miram diretamente o vírus, mas não são confiáveis. E com frequência o vírus desenvolve resistência contra eles", diz Joy.

O pesquisador Thiago Moreno, do Instituto Oswaldo Cruz, observa que os resultados devem ser vistos com cautela, já que mostram que a substância só seria eficaz se administrada até 24 horas depois da exposição. "Se fosse pensar em uma droga para uso terapêutico, quando aparecem os sintomas, normalmente o paciente já está infectado há alguns dias", diz.

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