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Protestos populares no Egito põem fim à era Mubarak

Uma furiosa onda de protestos levou na sexta-feira o presidente do Egito, Hosni Mubarak, a renunciar após 30 anos no poder, desencadeando uma onda de celebrações e passando um alerta a outros ditadores do mundo árabe.

EDMUND BLAIR E SAMIA NAKHOUL, REUTERS

11 de fevereiro de 2011 | 19h59

Mubarak é o segundo líder árabe a ser deposto por uma rebelião popular em menos de um mês. Ele transferiu o poder ao Exército após 18 dias de incessantes manifestações motivadas pela pobreza, corrupção e repressão. Nos últimos dias, as Forças Armadas deixaram claro que já não apoiavam mais Mubarak.

O vice-presidente Omar Suleiman disse que um conselho militar irá assumir o controle do país, o mais populoso do mundo árabe. Uma eleição presidencial livre e limpa foi prometida para setembro, embora alguns questionem o apetite do Exército por uma verdadeira democracia.

Fontes do partido governista disseram que Mubarak, de 82 anos, e sua família deixaram o Cairo para o balneário de Sharm el Sheikh, na costa do mar Vermelho.

Em êxtase, os egípcios foram às ruas para celebrar em clima carnavalesco a vitória pacífica da sua "Revolução Branca". Na praça Tahrir (Libertação), epicentro dos protestos, as pessoas se abraçavam, mal conseguindo acreditar que o "Faraó" havia sido derrubado.

"O pesadelo acabou!", disse o alfaiate Saad el Din Ahmed, 65 anos, no Cairo. "Agora temos nossa liberdade e podemos respirar e exigir nossos direitos. Na era Mubarak, nunca vimos um dia bom. Tomara que agora vejamos dias melhores", completou o comerciante Mostafa Kamal, 33 anos.

Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama disse que "o povo do Egito falou", e fez um alerta ao Exército do país, que recebe 1,3 bilhão de dólares por ano em ajuda norte-americana: "Os egípcios deixaram claro que nada aquém de uma democracia genuína irá lhes convencer".

Mas não está claro até que ponto os militares, sob o comando do marechal Mohamed Hussein Tantawi, estariam dispostos a permitir uma democracia -- especialmente depois que o até então proscrito grupo islâmico Irmandade Muçulmana tornou-se uma das forças mais bem organizadas.

"Isso é só o final do começo", disse Jon Alterman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. "O Egito não está avançando para a democracia, está avançando para uma lei marcial, e pode-se debater para onde isso vai agora."

Autoridades norte-americanas familiarizadas com as Forças Armadas egípcias dizem que Tantawi, de 75 anos, parece ser resistente a mudanças. Ele passou mais de 20 anos como ministro da Defesa, e tem um passado firmemente arraigado na velha guarda da elite governista.

ELOGIO AOS 'MÁRTIRES'

Em nota, o Supremo Conselho Militar disse que tomará medidas para gerir o país na transição, e que espera realizar as esperanças do povo. Mantendo o tom equilibrado que adotaram ao longo da crise, os militares elogiaram Mubarak por renunciar "atendendo aos interesses da nação", e homenagearam os "mártires" que morreram nos 18 dias de protestos.

A consultoria Stratfor disse que "os militares promoveram um golpe comandado por (...) Tantawi. Não está claro se Suleiman permanecerá como chefe civil de um governo militar. O Egito está voltando ao modelo de 1952, de governo do Estado por meio de um conselho de oficiais do Exército."

A crise que abateu Mubarak foi a mais grave no Egito desde que um golpe militar derrubou, em 1952, a monarquia do rei Farouk, que tinha apoio britânico. Os generais governam o país desde então, embora Mubarak e seu antecessor, Anwar Sadat, raramente aparecessem fardados e deixassem oficiais da ativa em segundo plano.

Em meio aos manifestantes, muitos demonstravam receio com a perspectiva de um regime militar, mas um dirigente da Irmandade Muçulmana disse que a rebelião alcançou seu principal objetivo.

"Saúdo os egípcios e os mártires. Este é um dia de vitória para o povo egípcio. A principal meta da revolução foi atingida", disse à Reuters Mohamed El Katatni, ex-líder da bancada parlamentar da Irmandade.

O ativista liberal Mohamed El Baradei, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, disse que a sexta-feira foi "o maior dia" da sua vida. Ele afirmou à Reuters esperar um período de partilha de poderes entre o Exército e o povo, e afirmou que não cogita disputar a Presidência.

"Esta nação renasceu, esta gente renasceu, e este é um novo Egito", afirmou Ayman Nour, único homem que ousou desafiar Mubarak na única eleição presidencial feita com mais de um candidato, em 2005. Ele ficou num distante segundo lugar, e depois foi preso.

Para celebrar esse novo capítulo na história do país, os manifestantes agitaram bandeiras, soltaram rojões e bateram tambores. Muitos trocavam mensagens de texto por celular, congratulando-se.

Um orador fez o anúncio na praça Tahrir, onde centenas de milhares de pessoas dançavam e cantavam, gritando que "o povo derrubou o regime". Outros bradavam "Allahu akbar" ("Deus é o maior").

Para alguns, era o fim da era de injustiças. Outros viam a possibilidade de que o país recupere seu lugar como centro político, cultural e econômico do mundo árabe. A maioria se dizia orgulhosa por ser egípcia e vivenciar um dia histórico.

"Rompeu-se uma barreira psicológica não só para o norte da África, mas para todo o Oriente Médio. Acho que veremos algum contágio em termos de protestos; Marrocos, talvez Jordânia, Iêmen", disse Anthony Skinner, da consultoria de risco político Maplecroft.

REPERCUSSÃO

Na Argélia, as autoridades já se preparam para protestos no sábado. Os líderes islâmicos do Irã - um país não-árabe - celebraram a queda de um regime que se aliava com EUA e Israel. Mas grupos pró-democracia também receberam a notícia com satisfação, esperando que ela inspire os iranianos a se rebelarem.

Na Grã-Bretanha, o primeiro-ministro David Cameron disse se tratar de uma oportunidade histórica para o Egito. A chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou partilhar da alegria do povo egípcio. A França cobrou a realização de eleições livres e limpas.

Israel disse esperar a preservação das relações pacíficas com o Egito - primeiro país árabe a fazer a paz com o Estado judeu, em 1979.

Os mercados financeiros também reagiram positivamente, antevendo uma menor chance de conflitos no Oriente Médio, região rica em petróleo.

As autoridades da Suíça anunciaram o congelamento de bens que possam pertencer a Mubarak.

Os EUA, tradicionais aliados de Mubarak, defenderam uma rápida transição democrática a fim de restaurar a estabilidade do país, que tem uma posição estratégica por causa do canal de Suez, e é visto como um baluarte contra o avanço do fundamentalismo islâmico,

MILITARES NO COMANDO

De acordo com a emissora de TV Al Arabiya, o Exército se prepara para anunciar a dissolução do gabinete, a suspensão do Parlamento, e que o chefe da Corte Constitucional dividirá o poder com o Conselho Militar.

Antes do anúncio da renúncia de Mubarak, os militares haviam oferecido garantias de que reformas democráticas seriam realizadas. Mas isso não contentou os manifestantes, que iniciaram passeatas na direção do palácio presidencial e da torre da TV estatal.

No final, as Forças Armadas se viram no dilema entre proteger o veterano presidente ou expulsá-lo, preservando sua própria autoridade.

As potências mundiais também se mostravam cada vez menos simpáticas a Mubarak, pressionando-o a promover uma transição ordeira a fim de contentar os protestos, inspirados parcialmente na rebelião popular que derrubou, em 14 de janeiro, o presidente Zine al Abidine Ben Ali, na Tunísia.

Mubarak chegou ao poder depois de seu antecessor Sadat ser assassinado por um militante islâmico durante um desfile militar em 1981. O robusto ex-brigadeiro acabou sendo um líder muito mais duradouro do que qualquer um poderia prever na época. Ele promoveu a paz no Oriente Médio, e mais recentemente apoiou reformas econômicas dentro do país. Mas sempre manteve um rígido controle contra qualquer forma de oposição.

(Reportagem de Samia Nakhoul, Edmund Blair, Marwa Awad, Yasmine Saleh, Dina Zayed, Shaimaa Fayed, Alexander Dziadosz, Sherine El Madany, Patrick Werr, Alistair Lyon, Tom Perry, Andrew Hammond, Jonathan Wright, Peter Millership e Alison Williams no Cairo; Arshad Mohammed e Ross Colvin em Washington)

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