Prova de universidade estadual tem propaganda do governo

Na Bahia, questão do vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz trouxe publicidade do Estado

Tiago Décimo / SALVADOR, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

O estudante Rainer Moraes, de 26 anos, que prestava vestibular para uma das 30 vagas do curso de Ciências Contábeis da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), entre Ilhéus e Itabuna, no litoral sul da Bahia, levou um susto ao ver no primeiro dos três dias de provas uma propaganda do governo do Estado ilustrando uma das questões.

"Pensei: se o vestibular já vem querendo "doutrinar" os alunos, imagina como é dentro (da universidade)?", lembra. "Não cabe apologia em uma prova para uma instituição pública."

A pergunta, a segunda da parte discursiva da prova de língua portuguesa e literatura, aplicada em 16 de janeiro, causou controvérsia e o caso envolve até políticos e o Ministério Público.

A questão apresenta a reprodução de um anúncio publicitário do governo, publicado em página dupla na revista Veja, na edição de 1.º de dezembro. Sob o título "Mais baianos produzindo a cultura / Mais cultura para todos os baianos", o texto elogia a administração dos projetos de cultura do governo do Estado.

A prova apresentava duas perguntas, que reforçavam trechos do discurso da propaganda. A primeira: "Explique o sentido do verbo "pulsar" em "Uma grande mudança faz a cultura da Bahia pulsar mais forte"". A outra: "Faça um comentário sobre o duplo sentido que a expressão "a cultura de todos os baianos" produz na frase "A cultura que o Brasil inteiro admira, mais do que nunca, agora também é a cultura de todos os baianos"".

Presidente da Fundação Liberdade e Cidadania e um dos líderes da oposição no Estado, José Carlos Aleluia (DEM) diz que vestibulares de universidades estaduais não podem servir de instrumento de propaganda do governo. "Espero que o Ministério Público tome alguma providência contra esse abuso do governo de Jaques Wagner (PT)."

Segundo a Secretaria de Educação da Bahia, cada universidade tem autonomia para definir o formato e o conteúdo de seus processos seletivos. A assessoria do órgão informou que a secretaria não tinha conhecimento do uso da peça publicitária na prova - e o secretário, Osvaldo Barreto Filho, não quis comentar o exame.

Na Uesc, a Gerência de Seleção e Orientação disse não ter detectado irregularidade na prova. E informou que a elaboração, a entrega, o recolhimento e a correção da prova são responsabilidade da Consultec, empresa vencedora da licitação. "Se eu tivesse elaborado a prova ou se tivesse tido conhecimento anterior sobre a pergunta, não colocaria", disse o reitor da Uesc, Antonio Bastos da Silva.

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