Prova é considerada boa, mas trabalhosa

No 1ª exame pós-Lei de Cotas, houve questões sobre Martin Luther King e africanos; 2 questões de Física são criticadas

O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h05

O primeiro dia de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) transcorreu ontem dentro da normalidade, segundo o Ministério da Educação (MEC). Toda a operação de logística ocorreu conforme o planejado e os problemas foram todos pontuais e localizados, sem afetar a realização, hoje, do segundo e último dia de prova - a principal porta de acesso às universidades federais, com 5,7 milhões de inscritos em todo o País.

Os casos mais graves ocorreram nas redes sociais, monitoradas pelo MEC - que agiu rápido. Às 10h08, um usuário do Twitter espalhou boatos de que o Enem 2012 havia sido cancelado. O MEC desmentiu prontamente e avisou a Polícia Federal. De acordo com a assessoria de imprensa do ministério, a informação falsa partiu do perfil chamado Chora Minha Nega (@gui_pangua) e alcançou o quarto lugar dos Trending Topics - os assuntos mais comentados - mundiais no final da manhã.

Segundo o MEC, o internauta mora em Campinas e pode ser processado por atentar contra concurso público, crime previsto no Código Penal. Se condenado, terá de pagar multa e ficar preso por 1 a 4 anos.

De olho na repercussão nas redes sociais, o MEC também foi rápido ao detectar fraudes via internet. Foram eliminados e retirados das salas de prova 37 candidatos que tiraram fotos dos cadernos de prova e cartões resposta e compartilharam em sites como Twitter e Instagram. Os casos foram registrados em vários Estados e os acusados tiveram seus desempenhos anulados.

Outros problemas foram considerados de rotina, como a queda de energia em três locais, que foram restabelecidos e sem prejuízo da realização das provas. Outro problema alheio à organização do exame ocorreu em Salvador (BA): uma manifestação de cerca de cem moradores de uma favela interrompeu, no final da manhã, o trânsito na Avenida Antônio Carlos Magalhães, uma das mais movimentadas da capital baiana, atrasando dezenas de estudantes que seguiam para os locais de prova.

Atraso. Trânsito engarrafado e dificuldades de locomoção, por sinal, foram as principais justificativas de candidatos que chegaram atrasados. A carioca Amanda Silva de Freitas, de 18 anos, até mora perto do local da prova, no bairro do Maracanã, zona norte do Rio. Mas chegou às 13h03 e acabou barrada. Desesperada, Amanda tentou subir no portão, mas desistiu. Ela contou que saiu de casa, a poucos quarteirões, às 12h45, e foi pega de surpresa pelo engarrafamento. Decidiu saltar do carro da mãe e seguir a pé, mas não chegou a tempo. "Vacilei, um ano jogado fora", lamentou.

Em Fortaleza, a candidata Marcela Moreira, de 18 anos, foi impedida de fazer a prova porque não tinha os documentos. "Fui assaltada quando estava chegando. Eles levaram meus documentos e celular", relatou. A polícia registrou pelo menos dez assaltos perto dos locais de prova na capital cearense.

Em Curitiba, dois candidatos, Márcio Renato, de 21 anos, e Joice Cristina, de 17, perderam a prova por errar o ônibus. Por ironia, eles fariam suas provas somente a partir das 19 horas, pois ambos são adventistas e têm regime especial para o exame - condição que atinge 85.662 mil candidatos em todo o País, compostos em sua maioria por judeus ortodoxos, além de adventistas.

Em outros Estados, como no Acre, realizar o Enem virou operação de guerra. O governo acreano gastou R$ 51 mil para bancar passagens de 57 alunos de dois municípios (Jordão e Santa Rosa do Purus). Por causa do fuso horário, a prova começou às 10 horas de Brasília. / LUCIANA NUNES LEAL e ROBERTA PENNAFORT (RIO), ITAAN ARRUDA (RIO BRANCO), LAURIBERTO BRAGA (FORTALEZA), LUCAS AZEVEDO (PORTO ALEGRE), TIAGO DÉCIMO (SALVADOR), MARCELO PORTELA (BELO HORIZONTE), PAULO CLARO (CAMPINAS), JULIO CESAR LIMA (FLORIANÓPOLIS), CARLOS LORDELO, TOMÁS PETERSEN, LUÍSA MELO e CRISTIANE NASCIMENTO (SP), ESPECIAL PARA O ESTADO

Os estudantes que fizeram ontem o primeiro dia do Enem encontraram uma prova longa, com muitos textos, mas de dificuldade geral considerada entre fácil e média por professores consultados pelo Estado. No primeiro exame pós-Lei de Cotas, houve questões sobre Martin Luther King e povos africanos.

Algumas perguntas utilizaram trechos de obras dos filósofos Immanuel Kant, Charles de Montesquieu e Jürgen Habermas. Outras eram baseadas em textos jornalísticos.

Segundo o professor de História Daniel Gomes de Carvalho, do CPV, a escolha desses textos e temas foram pontos fortes da prova. "Estava bem dentro do esperado, no esquema do Enem de cobrar história da África, a questão do outro, da liberdade e violência. Muita filosofia e a interface com a história", diz. "Para ir bem nessa prova, não pode ser um aluno limitado. Tem de ser um aluno que pense."

Apesar de textos e imagens - como reprodução de gibi do Capitão América e cartaz da Revolução de 1932 - o exame não trouxe mapas. "Não ter mapas é apontado como uma falha. É uma informação visual, direta e muito utilizada", diz o professor de Geografia do CPV Evaldo Valente Guimarães.

O coordenador do Etapa, Edmilson Motta, viu uma evolução da prova em relação a anos anteriores. "Houve mais equilíbrio. Antes, o Enem pedia muita ecologia e meio ambiente e hoje caíram varias áreas", diz ele, que considerou a prova exigente. "O Enem já é famoso por textos grandes. Agora estavam até menores, mas eram muitos e de alto nível de compreensão".

Problemas. Segundo a equipe do curso Objetivo, duas questões de Física eram problemáticas e podem ser anuladas. Uma delas é a questão 51 da prova amarela, que falava sobre hidrostática. "Se o aluno considerasse apenas as informações do texto inicial, chegaria a uma resposta. Porém, se levasse em conta um dado suplementar tirado da internet, chegaria a outra conclusão", diz o professor Ricardo Helou Doca.

Para o coordenador da Oficina do Estudante, Célio Tasinafo, a questão 49, sobre comprimento da onda, também tinha falhas. "Se o aluno fizer o cálculo pela velocidade, chega a um valor. Se for pelo cumprimento, outro."

O professor de Química Flavio Augusto Antonietto, do CPV, elogiou o exame, mas fez uma ressalva. "A questão 64 da prova amarela, de mecanismos de reação orgânica, não era de ensino médio."

Matheus Ciappina, de 17 anos, saiu satisfeito. "É como uma prova tem de ser, de raciocínio puro, sem pegadinha. Achei a parte de Física a mais difícil, mas nada fora do comum", diz ele, aluno do 3.º ano do Colégio Drummond, no Tatuapé, zona leste - mas fez a prova na Vila Mariana, zona sul.

Cippiano pretende fazer Licenciatura em Música em alguma federal. Quer seguir os passos do irmão, aluno da UFABC, e da irmã, que entrou na Unifesp. "Eles entraram pelo Enem, vamos ver se agora é minha vez."

O analista de segurança e cadeirante Marcello Martins, de 43 anos, resolveu fazer o Enem em busca do terceiro diploma. "Quero realizar o meu sonho de cursar Medicina. Mesmo com todas as minhas dores, pois sofro de polioneuropatia inflamatória, vim fazer a prova", disse. / DAVI LIRA, PAULO SALDAÑA, DIEGO CARDOSO e VICTOR VIEIRA, ESPECIAL PARA O ESTADO

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