'Próximo papa não vai promover revolução'

A renovação poderá vir apenas na imagem e na forma de passar a mensagem, mas não na doutrina, afirma Reese

Entrevista com

VATICANO, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2013 | 02h10

Uma revolução não ocorrerá no Vaticano. O alerta é de um dos principais vaticanistas, o americano Thomas Reese, professor, padre e editor de algumas das revistas mais prestigiadas na comunidade católica.

Em entrevista ao Estado, o especialista admite que a Igreja Católica poderá optar por uma nova imagem ao escolher o novo papa. Mas ele insiste que isso não significará uma mudança radical na posição da Santa Sé sobre alguns dos principais temas que a Igreja é questionada, como a participação de mulheres e o combate à aids.

Reese foi o editor da revista jesuíta America até 2005. Mas sua atitude de publicar artigos de diversas alas da Igreja irritou a cúpula da Santa Sé. Ele foi afastado e hoje dá aulas na Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, publicou uma série de livros sobre a dimensão política da Santa Sé e é considerado dentro e fora do Vaticano como uma das pessoas que mais conhecem a instituição. A seguir os principais trechos da entrevista:

Há pressões mesmo de dentro da Igreja para que a renúncia do papa seja aproveitada para reformar o Vaticano. O senhor acredita que chegou o momento?

Não existem revoluções neste Vaticano. Isso precisa ficar claro. Sempre foi assim e, agora, não há sinais políticos de que isso poderia ocorrer. Pode haver uma mudança de estilo. Mas dificilmente veremos a chegada de um papa que promova uma revolução na doutrina que já foi adotada pelo papa Bento XVI.

Porque o senhor diz que não existem sinais políticos?

Basta ver a composição da Cúria e os cardeais que votarão no próximo conclave. Mais da metade deles foi nomeado pelo próprio Bento XVI que, obviamente, trouxe à cúpula da instituição pessoas que tinham a mesma linha de pensamento dele, com uma ou outra variação. Por isso acredito que, na próxima escolha, dificilmente teremos uma surpresa. Os números simplesmente impedem que isso seja uma realidade.

Mas muito se fala na possibilidade de um papa que seja do mundo em desenvolvimento. Isso não seria uma revolução?

Talvez na imagem e na forma de passar a mensagem, mas não no conteúdo. Basta ver a diferença entre o papa João Paulo II e Bento XVI. João Paulo era carismático, viajava, emocionava as pessoas. Mas, no fundo, tinha exatamente as mesmas posições que Bento XVI. Com o ele, nada mudou em termos de doutrina em comparação ao que foi o pontificado de João Paulo. Por isso, o que acredito que possa ocorrer agora seria uma mudança na estratégia de passar a mensagem. Para alguns isso pode ser revolucionários. Mas, dentro do Vaticano, essa mudança de imagem só ocorrerá com a garantiria que a doutrina não será tocada.

Quais seriam os principais desafios do próximo papa?

No fundo, a Igreja tem apenas um desafio no que se refere a ela mesmo: garantir que sua mensagem volte a chegar à sociedade. O mundo mudou, a sociedade mudou e há uma constatação de que a Igreja vem perdendo fiéis. Essencialmente, o próximo papa terá a missão de restabelecer essa comunicação que, em algumas partes do mundo, foi perdida ou está enfraquecida.

Como o senhor vê o papel do Brasil num novo pontificado?

O Brasil é e será cada vez mais relevante dentro da Igreja. Hoje, o Brasil é o maior país católico do mundo, e isso a Igreja sabe o quanto vale nesse momento de crise. Uma prova disso é que, em um determinado momento, a cúpula da Santa Sé ficou sem um brasileiro (com a saída de d. Claudio Hummes). A situação criou uma certa vergonha dentro da instituição e Bento XVI foi obrigado a chamar um brasileiro (d. João Aviz) para assumir um cargo e colocar o Brasil dentro da cúpula da Igreja.

Mas isso significa que um brasileiro tem chances de ser o próximo papa?

Se você me perguntar se o Brasil merece uma posição mais forte na Igreja, acredito que sim. Não se pode excluir a possibilidade de um papa latino-americano. Mas insisto que isso não seria uma revolução na doutrina, e sim na mensagem. / J.C. E FELIPE DOMINGUES, ESPECIAL PARA O ESTADO

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