Psiquiatria do HC usa jornal com terapia

Notícias do 'Estado' incentivam discussões

O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h07

Quarta-feira, 10 horas. O jornal do dia está aberto e dez pacientes olham as principais notícias. A psicóloga pergunta sobre qual delas eles querem discutir. "Sobre o rapaz nazista", diz um deles. O paciente se referia ao atirador norueguês Anders Breivik, julgado por matar 77 pessoas. Parte da discussão gira em torno da sanidade do réu: Breivik tem consciência dos seus atos ou sofre um transtorno mental e não pode ser responsabilizado?

A cena aconteceu no Hospital Dia do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-USP), durante a oficina de jornal "leitura e discussão", que usa O Estado de S. Paulo como a fonte de notícias e ocorre uma vez por semana com a participação dos pacientes em tratamento psiquiátrico.

O grupo existe há cerca de um ano e é coordenado pela psicóloga Adriane Duarte. "O nosso objetivo é promover meios de reinserir esses pacientes à sociedade. E ler notícias é uma forma de interação com o cotidiano fora daqui", diz.

A oficina começa com Adriana lendo a manchete e as principais notícias. Em seguida, o grupo escolhe um ou dois temas que serão discutidos. A ideia é que cada um se posicione sem ser julgado pelos demais.

Participação. Na discussão sobre o atirador da Noruega, vários pacientes quiseram falar. "Ele matou o próprio povo dele, não dá para entender", disse uma mulher. "Ele é bem-vestido, sorri e faz ironias. Também fez um gesto nazista quando tiraram as algemas", falou um homem. "Ele é louco ou uma pessoa de má índole?", perguntou outra paciente. E assim o assunto fluiu por 20 minutos.

Os pacientes também falaram sobre notícias de economia e política internacional. Ao fim, eles escolhem outro assunto, pesquisam sobre ele fora da oficina e entregam um artigo para a psicóloga nas próximas reuniões. O material é corrigido e divulgado num mural interno do hospital.

"Tem dado tão certo que alguma pessoas levam embora os artigos escritos por eles. Se estão levando embora, é porque gostaram", diz Adriane.

O paciente V. S., de 36 anos, ainda não tem um diagnóstico fechado, mas diz que sempre teve déficit de aprendizado. Ele participa da oficina há quase um ano e ali descobriu a aptidão para a literatura. Agora, escreve uma autobiografia. "Saio daqui atualizado. Nosso problema não nos impede de estarmos antenados com as notícias do mundo."

P.A.C, de 37 anos, foi diagnosticado com depressão e transtorno obsessivo compulsivo. É tratado há três anos e participa da oficina há cerca de um. Ele viu no grupo uma oportunidade de ler e exercitar a mente. "Quando a gente fica sem praticar uma atividade saudável, passa a viver só para a doença. Aqui estou vencendo um obstáculo e mantendo a mente ocupada com coisas boas", diz ele, que atualiza de todos os murais internos do hospital.

O Instituto de Psiquiatria da USP completará 60 anos na quinta-feira, dia 26. Pela primeira vez o local vai abrir as suas portas para o público. O objetivo é desmistificar a ideia de que um hospital psiquiátrico é uma casa de reclusão, que prende os pacientes.

Médicos, psicólogos, professores e funcionários vão tirar dúvidas da população. E haverá palestras para que as pessoas conheçam o trabalho desenvolvido no local.

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