Joshua Lott/Reuters
Joshua Lott/Reuters

Puxadinhos conjugais

Com seu biótipo picolé de chuchu, o presidente da França está se revelando um Cauã Reymond

Paulo Nogueira,

19 de janeiro de 2014 | 13h57

Neste início de 2014, a obra do inglês Bernard Mandeville deve ter virado livro de cabeceira de dois dos mais poderosos estadistas contemporâneos. Mandeville argumentou que vícios privados fazem públicas virtudes: os desejos egoístas fomentariam desenvolvimento pessoal e assim fortaleceriam o mercado e o Estado. Para azar de Barack Obama e François Hollande, porém, também continua valendo o alerta romano: à mulher de César não basta ser honesta - tem de parecer honesta.

Claro que não é de hoje que a libido espalha cascas de banana no caminho de governantes. Com aquela carinha seráfica, John Kennedy levou dezenas de mulheres para nadarem nuas na piscina da Casa Branca. Mas foi Bill Clinton o protagonista do maior escândalo sexual da história dos EUA. Em 1995, Clinton transou precisamente dez vezes com a estagiária Monica Lewinsky, de 22 anos, em pleno Salão Oval. O episódio quase ditou o impeachment do presidente, que foi obrigado a confessar pela TV que pulara a cerca e mentira "ao povo e a minha mulher". Em seu livro sobre Hillary Clinton, Carl Bernstein revela que Bill pensava em divórcio desde 1989, por causa de sua suposta amante, Marilyn Jo Jenkins. Segundo Bernstein, Hillary persuadiu o marido a ficar e suspirou para uma amiga: "Há coisas piores que a infidelidade".

Na França, apesar da pinta augusta e marmórea, François Mitterrand manteve matriz e filial anos a fio. Nem a mídia, nem a oposição e muito menos a opinião pública francesa sabiam do puxadinho conjugal.

A realidade se diverte em atestar como as aparências enganam. O atual presidente da França que o diga. Com seu biótipo picolé de chuchu, François Hollande está se revelando quase um Cauã Reymond.

Essa semana, a revista Closer lançou uma edição especial com "sete páginas de fotos da ligação de Hollande com uma atriz". As imagens mostram um homem de capacete de motociclista chegando de scooter ao apartamento de Julie Gayet. Julie, de 41 anos, é divorciada do cineasta argentino Santiago Amigorena, com quem teve dois filhos.

Hollande foi casado durante 23 anos com a política Ségolène Royal. Desde 2007 vive com Valérie Trierweiler, cuja ferocidade na defesa dele levou a mídia a apelidá-la de Rottweiler. Ao ver as fotos, a primeira-dama surtou de tal forma que baixou hospital.

Uma sondagem mostrou que a imagem de Hollande não foi abalada pela revelação: 77% dos entrevistados consideram que se trata de uma questão privada, e 84% disseram que não mudaram de opinião sobre ele por causa do escândalo. O que não é necessariamente bom. Hollande já era o presidente mais impopular da história da França, com raquíticos 26% de aprovação.

A França - cidadãos e mídia - reagiu com uma altivez olímpica. Jornais e revistas proclamaram que não pretendem ser confundidos com a sofreguidão xereta dos tabloides britânicos. No dia seguinte ao dossiê da Closer, a imprensa local preferiu destacar uma guinada na administração Hollande, que estaria se distanciando do socialismo em favor da social-democracia. A capa do Libération estampava "Hollande Liberé", trocadilho com as palavras "liberer" (libertar) e "liberale" (liberal, favorável ao livre-mercado). Já a notícia sobre o suposto affair vinha numa coluninha na página três. A mídia inglesa deu o troco, acusando os jornalistas parisienses de "deferência institucional".

Não, adultério não é novidade no Palácio do Eliseu. Jacques Chirac seduziu uma repórter do Le Figaro. Sarkozy teria traído e sido traído por Carla Bruni. Há dois anos, uma biografia não autorizada jurava que a própria Valérie havia sido infiel ao segundo marido com um ministro de Sarkozy, ao mesmo tempo que começava a sair com Hollande. Enfim, aquilo que os franceses chamam de joie de vivre (alegria de viver).

Voltando à Casa Branca, consta que o aparentemente idílico e inexpugnável casamento dos Obamas também derrapou.

Michelle, que fez 50 anos na sexta-feira passada, decidiu permanecer no Havaí para umas "férias de solteira", enquanto o marido e as filhas regressavam a Washington. Há meses a mídia americana assinala desavenças do casal, que já não dormiria no mesmo quarto e teria falado em divórcio. As especulações dispararam depois do funeral de Mandela, quando Obama ficou de chamego com a primeira-ministra dinamarquesa perante a cara de enterro (nos dois sentidos) de Michelle. Após a mancada, Michelle teria consultado um advogado especializado em divórcio e preparado a mudança para a mansão do casal em Chicago.

Obama e Hollande vão se reunir em Washington no dia 11 de fevereiro. Talvez Hollande console Obama e a si próprio com um epigrama do humorista Coluche, que em 1981 concorreu à presidência da França: "Os médicos dizem que os homens casados vivem mais que os solteiros. Não é bem assim: a vida apenas parece mais longa".

PAULO NOGUEIRA, JORNALISTA E ESCRITOR, É AUTOR DE O AMOR É UM LUGAR COMUM (INTERMEIOS)

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