Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Qualidade no arábica capixaba

Tradicional produtor da variedade conillon, ES quer deixar sua marca também como exportador de cafés finos

Fernanda Yoneya, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2009 | 02h42

Maior produtor de café conillon do País, com índice médio de produtividade de 30 sacas/hectare, o Espírito Santo quer, agora, investir na produção de café arábica de qualidade reconhecida. Conhecido como "café das montanhas" - em referência às características da região onde é plantado no Estado -, o café arábica capixaba ocupa 185 mil hectares e é tradicionalmente cultivado por pequenos produtores, em áreas de até 10 hectares.

Nas regiões serrana e do Caparaó, com altitudes que variam de 400 a 1.200 metros, a produção de arábica é a principal fonte de renda e o cultivo representa 74% da produção estadual. Segundo o secretário de Agricultura do Espírito Santo, Ricardo Ferreira dos Santos, a produtividade do arábica está estagnada. "Ao contrário do cultivo de conillon, que teve variedades novas e a adoção de tecnologia para elevar a produtividade e melhorar a qualidade, o arábica, cultivado há mais tempo que o conillon, não evoluiu na última década. Vencer esse atraso é o desafio."

PARQUE ENVELHECIDO

"Há tecnologia disponível para a lavoura, mas, às vezes, por falta de recurso ou de informação, ela não é aproveitada por esses produtores. O resultado é que nosso parque cafeeiro de arábica está envelhecido", diz o engenheiro agrônomo Romário Gava Ferrão, pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).

Ferrão é coordenador do Programa Estadual de Cafeicultura Sustentável e uma das propostas do programa é a renovação das áreas de arábica do Estado.

Com investimento de R$ 142,8 milhões, foi lançado recentemente pelo Incaper o Programa Renovar Arábica, que pretende substituir, em 15 anos, todo o parque cafeeiro de arábica do Estado. Pelo programa, cerca de 20 mil cafeicultores, em 49 municípios, vão receber material genético melhorado e adaptado à região, assistência técnica e cursos de capacitação de boas práticas de produção.

A meta, conforme Ferrão, é renovar, a cada ano, cerca de 10 mil hectares. "A cada ano, vamos aumentar a área a ser renovada em 5%."

Hoje, segundo Santos, o principal problema do café arábica do Estado é a idade média avançada das lavouras - a maioria tem mais de 15 anos. Como consequência, a produtividade cai, o café perde qualidade e a atividade torna-se inviável para o pequeno produtor. "Com a adoção de novas práticas agrícolas, como uma simples análise de solo, por exemplo, a situação já muda", acredita Ferrão. Tanto que o programa calcula um aumento de produtividade de 12 sacas/hectare para 24 sacas/hectare, sem expandir a área plantada. "A área deve até cair de 185 mil hectares para 173 mil hectares. A tecnologia permite isso", diz Santos.

PRODUÇÃO DOBRADA

Segundo Ferrão, a ideia é dobrar a produção do Estado, de 2,5 milhões para 5 milhões de sacas. "E, desse volume total, queremos que 30% seja de café superior, com alto valor agregado, já que o arábica capixaba é exportado para Europa e Estados Unidos."

A execução do programa inclui a participação de técnicos do Incaper, da iniciativa privada, de associações de produtores, cooperativas e outras entidades parceiras, como escolas agrotécnicas.

A matéria-prima do projeto são tecnologias já disponíveis, como mudas de genética superior, plantio adensado, análise de solo e foliar, adubação racional da lavoura e manejo do mato entre as ruas do cafezal. Para começar, 20 toneladas de sementes, de 16 variedades de café adaptadas para o Espírito Santo pelo Incaper, estão sendo multiplicadas.

"Esses viveiristas serão os fornecedores de material genético sadio, tolerante a doenças e altamente produtivos para os participantes do projeto", diz o coordenador do programa. Ainda este ano, mais de 500 treinamentos já estão programados, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-ES). Os 49 municípios participantes foram divididos em seis regiões e cada uma terá um grupo gestor.

"Vamos levar ao produtor informações técnicas e de gerenciamento da propriedade. Além de aspectos ligados à lavoura, como irrigação, adubação baseada em análise de solo, cuidados na secagem e processamento de café, vamos difundir noções de administração, de gestão do negócio", afirma Ferrão.

 

TECNOLOGIA SERÁ DIFUNDIDA

Embora seja prática básica em qualquer lavoura, a análise de solo não é comum entre os produtores e será estimulada. Outra tecnologia a ser difundida é o plantio adensado. A média no Espírito Santo é de 2.500 plantas/hectare, mas o programa vai incentivar o plantio de até 5 mil plantas/hectare. "O adensamento protege contra a erosão, diminui a incidência de raios solares no solo e reduz o crescimento de mato. São essas vantagens que passaremos ao produtor", diz agrônomo Romário Ferrão. Como complemento à capacitação, estão sendo instaladas 40 lavouras, de 1 hectare. "No campo, o produtor se convence de que é possível produzir 20, em vez de 10 sacas/hectare", diz. Para o produtor José Côco Camporez, de Brejetuba, o ponto mais importante é a informação. "Parece pouco, mas saber como coletar solo para análise significa muito", diz. "Com o programa, quero chegar a 50 sacas/hectare. Com informação, é possível."

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