Quando o aborto é uma estratégia reprodutiva

Contos infantis e páginas policiais estão cheios de padrastos malvados. Geralmente o pai morre, a mãe se casa novamente e o drama gira em torno do esforço feito pela mãe para proteger a prole anterior da rejeição do novo marido. Darwin explica: não faz sentido um macho colaborar na criação de filhos que não carregam seus genes.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2012 | 03h01

Nos animais, esse fenômeno é mais violento. Muitos mamíferos se organizam em grupos onde diversas fêmeas são fecundadas por um único macho. Nessas espécies, é comum o macho dominante ser desafiado por um novo macho. Quando perde, é expulso do grupo e perde o acesso às fêmeas. Nesses casos, é comum que o novo macho mate todos os filhotes.

O novo macho não "quer" que suas fêmeas gastem energia criando a prole de outro. Mortas as crias, as fêmeas entram no cio e são fecundadas. Em algumas espécies, a ira do novo macho vai mais longe. Filhotes nascidos logo após a troca de machos também são mortos: eles não possuem os genes do novo macho.

Em 1959, a pesquisadora Hilda Bruce observou que, após colocar um camundongo macho desconhecido em uma gaiola com fêmeas prenhas, as fêmeas abortavam. É o chamado efeito Bruce, demonstrado em grande número de espécies, mas sempre em condições de cativeiro.

Inicialmente, o aborto foi atribuído ao estresse causado por um macho novo em cativeiro. Mas estudiosos propuseram que esse fenômeno poderia ser uma defesa das fêmeas. Se o novo macho vai matar os filhotes, não seria mais vantajoso para elas abortarem e assim poderem ser engravidadas pelo novo macho?

Em tese, isso garantiria às fêmeas um número maior de descendentes vivos, ao mesmo tempo que permitiria a incorporação mais rápida dos genes do macho superior.

Darwin teria aprovado a explicação. Mas, como o efeito Bruce nunca havia sido observado na natureza, essa interpretação não foi levada a sério. Agora, o efeito Bruce foi observado na natureza.

Os Theropithecus gelada são uma espécie de babuíno que habita as montanhas da Etiópia. Vivem em colônias de até 12 fêmeas, dominadas por um macho. O monopólio desse macho é frequentemente desafiado por outros que vivem em grupos contendo só machos. Durante cinco anos, os cientistas acompanharam 21 colônias de fêmeas (110 fêmeas no total). Nesse período, puderam observar 28 processos de troca de machos.

Como o período de gestação desses animais é de 183 dias (6 meses), os cientistas analisaram o número de filhotes nascidos ao longo de 18 meses - 6 antes da troca e 12 depois. Foram comparados dois grupos de colônias, um em que havia ocorrido a troca de macho e outro em que o macho não havia sido substituído.

Nas colônias em que o macho não havia sido trocado, o número de nascimentos foi constante: 28 filhotes nos primeiros 6 meses, 32 no segundo período e 30 no terceiro. Nas colônias em que o macho foi substituído, nos seis meses anteriores à troca do macho nasceram 25 filhotes. Nos seis meses seguintes (quando deveriam ter nascido os filhotes do acasalamento do macho anterior) nasceram somente 3. E, mais impressionante, no terceiro período (meses 7 a 12 após a troca de machos), quando os filhotes do novo macho nasceram, foram 60 partos.

Isso sugere que as fêmeas estavam abortando os fetos do macho anterior (nos seis meses após a troca) e engravidando rapidamente do novo. Isso explica o pico de nascimentos nos meses subsequentes aos seis meses em que praticamente não haviam nascimentos.

Não satisfeitos, os cientistas monitoraram o nível de estrógeno durante a troca de machos. A concentração desse hormônio aumenta na gravidez. Uma queda em sua taxa provoca a perda do feto. As fezes de cada fêmea foram coletadas diariamente e a taxa de hormônio, determinada. O resultado mostra que nas fêmeas prenhes a taxa aumenta gradativamente. Mas algo estranho ocorre no dia seguinte à troca de macho: a taxa de hormônio cai a zero e as fêmeas abortam. Isso comprova que as fêmeas abortam os fetos imediatamente após a troca de machos.

Quando os cientistas estudaram os números, concluíram que o aborto imediatamente após a troca de machos permite às fêmeas conceber um número maior de descendentes, além de evitar o infanticídio. O aborto também garante a incorporação rápida dos genes do novo macho dominante em um grande número de membros da população. É um dos poucos exemplos em que o processo de aborto é um mecanismo fisiológico natural que faz parte da vida social.

É claro que nas sociedades humanas a situação é diferente, mas nas discussões sobre a legalização do aborto muitas vezes é apresentado o argumento de que um filho indesejado tem chances menores de ser bem cuidado e educado. Enquanto na nossa sociedade essa discussão é tratada no plano moral, entre macacos o processo evolutivo selecionou favoravelmente fêmeas capazes de abortar em situações em que as chances de sobrevivência do feto são baixas. Nesses animais, o aborto faz parte da estratégia reprodutiva.

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