Quando os demônios são os outros

Quando os demônios são os outros

O pior não são as ideias extremistas, mas a falta de oposição eficaz a elas, diz advogado criminalista

Carolina Rossetti,

15 de janeiro de 2011 | 11h44

Analistas ligados aos democratas não demoraram em culpar pela tentativa de assassinato da deputada democrata Gabrielle Giffords o discurso incendiário da direita, personificado pela tea-partier Sarah Palin e vocalizado por radialistas e apresentadores de talk-shows republicanos. O presidente Barack Obama preferiu não comentar o acirrado clima político no país em seu discurso na Universidade do Arizona, no qual pediu união e civilidade a todos os americanos. Obama precisou interromper a fala por quase um minuto ao comentar sobre a menina de 9 anos morta com outras cinco vítimas por Jared Lee Loughner - o jovem que, armado com uma pistola Glock 19, foi a um evento político em Tucson, Arizona, e encheu de balas a deputada e quem estava perto dela.

 

Assassinatos políticos levaram quatro presidentes dos Estados Unidos. Mancham a história do país desde os tempos de Abraham Lincoln, morto em 1865 por um confederado que achou ofensiva sua ideia de conceder direito de voto aos negros. O último a cair sob disparos foi o democrata John F. Kennedy, também defensor dos direitos civis dos negros, na Dallas dos anos 60 inflada pelo racismo. Para Brian Levin, diretor do Centro para Estudo de Ódio e Extremismo da Universidade da Califórnia, o passado americano traz evidências de como uma retórica tóxica na esfera política pode muito bem servir de motivação para ações violentas de indivíduos que procuram escrever a história com as próprias mãos. Mas, no caso do atirador de Tucson, o especialista em justiça criminal argumenta que essa associação é apressada e inconsequente. "A paranoia, e não um verniz ideológico, é a principal cúmplice."

 

O atentado contra a deputada Gabrielle Giffords pode ser considerado crime político?

 

Essa pergunta presume que Loughner é capaz de apresentar um motivo coerente para sua ação. A gênese de sua violência é uma severa patologia mental. Além de descrédito no governo e repúdio às autoridades, ele não parece ter nenhuma mensagem política consistente que sustente seu discurso. Qualquer ideologia parece escapar a sua compreensão. Não há evidências de que tenha ido a reuniões do Tea Party, que fosse telespectador assíduo dos canais republicanos nem membro de um grupo extremista. Sofria de isolamento social e pode ter encontrado consolo em certo tipo de literatura radical, mais porque os escritos confirmassem sua paranoia do que por dialogarem com uma posição política consciente. Era um doente mental, não um ideólogo.

 

Alguns analistas relacionaram o incidente em Tucson com a atmosfera política atual do país. Existiriam vínculos entre um discurso político hostil e atos de violência?

 

Como o alvo foi uma deputada, essas reflexões emergiram com força. Não tenho dúvida de que esse tipo de retórica da extrema direita é tóxica. Falo de uma retórica que demoniza rivais e flerta com teorias da conspiração, fazendo exortações sutis ou mesmo explícitas à violência.

 

Assassinatos de políticos americanos foram lembrados pela imprensa, em particular, o dos Kennedys. Como saber se um assassinato é politicamente motivado?

 

Uma retórica tóxica pode ser destrutiva. Já vimos exemplos de pessoas que, influenciadas por ela, agiram com violência. Mas os que cometem assassinatos políticos têm históricos diferentes e não podemos ficar buscando de uma resposta universal. No Centro para Estudo de Ódio e Extremismo investigamos três causas mais recorrentes de crimes de ódio. Há os movidos por uma ideologia, seja política ou religiosa, como as pessoas que explodem clínicas de aborto; há os psicologicamente doentes; e há aqueles em busca de vingança ou benefício pessoal, como os punidos pela Receita Federal que cometem atentados contra o órgão. Às vezes as motivações são mais complexas e difíceis de identificar. Até hoje não sabemos ao certo o que levou Lee Harvey Oswald, ex-fuzileiro naval, a matar o presidente John F. Kennedy, já que Oswald foi assassinado dois dias depois na prisão. No caso do atirador de Tucson, não deveríamos tirar tantas conclusões apressadas. Ao que parece, existia motivação pessoal. Há três anos ele teve um encontro com a deputada e lhe fez uma pergunta, à qual ela não teria respondido a seu agrado. Desde então, pode ter ficado obcecado por ela. Essa retórica ácida no coração da política pode não ter nada a ver com isso. A paranoia, não um verniz ideológico, é a principal cúmplice de Loughner. Esse caso me lembrou o de Mark David Chapman. Ele viu em John Lennon um artista impostor que, por esse motivo, merecia morrer.

 

Em um artigo, o sr. diz que mesmo políticos desconhecidos pelo público em geral têm se tornado alvo de hostilidade pelo que representam simbolicamente: um governo distante e fora do controle. Por que o governo seria avaliado assim por parte do eleitorado?

 

Tanto a administração de Bush quanto a de Obama são vistas por grande parcela da população como governos que não responderam a questões importantes para o cidadão médio americano. O baixíssimo índice de aprovação do Congresso, perto de 13%, é preocupante. Também temos 20% dos americanos dizendo que Obama é o anticristo. Há décadas não víamos isso acontecer. Quando temos esse nível de desconfiança, sobreposto com camadas de descontentamento em relação à situação econômica, cria-se um ambiente fértil para que os ânimos fiquem exacerbados e pessoas instáveis cometam atos extremos.

 

O sr. mencionou a comparação de Obama ao anticristo. De fato, dois anos depois da posse, ele recebe quatro vezes mais ameaças diárias de morte do que George W. Bush. Por que a oposição a ele é tão visceral?

 

Primeiro por ser afro-americano. "Como assim, um negro nos governando?" Existe o sentimento de que ele não representa a América, seja lá o que isso signifique. Seus opositores mais radicais precisam inventar coisas que façam dele um E.T., para deslegitimá-lo. Essa estratégia remonta à era McCarthy, quando oponentes políticos eram retratados como impostores. Como fazer isso hoje? Não se pode culpá-lo por ser afro-americano, certo? Então dizem que é de outro país. Não só isso. Ele pratica secretamente a mesma religião que tenta destruir a nação. Veja, é um traidor! Não é merecedor do cargo! Dizer que é socialista também toca num nervo sensível da América. Reaviva o medo de que socialistas queiram dominar a sociedade americana e para isso haveria a infiltração de comunistas nos mais altos postos do governo.

 

Esse clima ameaça o exercício da democracia americana?

 

Qualquer coisa que diminua o debate civil e racional abre essa possibilidade. Mas é importante numa sociedade livre permitir que até esse tipo de lixo faça parte da esfera pública. Estou menos preocupado com o fato de essas ideias estarem por aí que com a falta de ação dos opositores a elas, que não se movem para rebater esses pontos de vista e ainda fazem uso deles para seu benefício político imediato. Mas esse fenômeno não se restringe aos Estados Unidos. É só ver o que ocorre na Europa com o sentimento nacionalista relacionado aos imigrantes. Ou observar o discurso fundamentalista no Oriente Médio e Ásia.

 

Sarah Palin foi apontada como a personificação desse discurso incendiário. O atentado afetará suas aspirações à Casa Branca?

 

Não acho que venha a ser prejudicada tão profundamente quanto pode parecer agora. Ela conta com uma base sólida de pessoas que a amam e a consideram genuína e não vão se deixar abalar com esse caso. Onde isso pode representar um obstáculo é na parcela do eleitorado que já têm problemas com a visão política de Sarah, sua competência administrativa e o modo como ela se porta.

 

A deputada Gabrielle Giffords era defensora da reforma do sistema de saúde e figura entre os alvos de uma campanha de Sarah Palin. Quanto essa questão dividiu o país?

 

Bastante. Tenho sentido que existe um número substancial de pessoas que acham que a reforma da saúde não deveria ser uma prioridade no momento, e outras que acham que as leis de imigração estão ferindo o país. Essas pessoas não se sentem ouvidas pelo governo. Não acho que tenham razão nem digo que sejam extremistas. Mas escuto o que dizem: "Ei, não sou um fanático, mas acho que essa reforma da saúde está sendo empurrada goela abaixo, é difícil entendê-la em todos os detalhes". Outros têm preocupações reais com a porosidade de nossas fronteiras e a segurança nacional.

 

Com minoria na Câmara e magra maioria no Senado, como Obama fará para equilibrar essas tensões políticas e tentar avançar suas propostas neste ano?

 

Ainda não sabemos como serão dadas as cartas em 2011. Como Obama ainda tem maioria no Senado, vai ser difícil para os republicanos operarem um retrocesso nessas medidas. Por outro lado, eles têm na Câmara um trunfo e podem usar essa tribuna para atacar Obama em todos os níveis. Se atacarem de forma irresponsável, poderão fomentar o azedume político.

 

Como um jovem com histórico de porte de drogas e suspeita de problemas mentais conseguiu comprar uma arma sem dificuldade?

 

Vimos essa cena muitas vezes. Buford O. Furrow, que invadiu uma escola judaica em Los Angeles e matou um trabalhador dos correios, em 1999, era um neonazista e tinha problemas mentais. Nos anos 90, foram implementadas leis de controle da posse de armas. O mesmo se deu depois do assassinato de Robert Kennedy, em 1968. Mas esta é a questão fundamental: por que um psicótico consegue uma arma com facilidade, enquanto minha mãe de 81 anos luta para comprar uma bengala? Ninguém condenaria uma lei que mantenha armas longe dos doentes mentais e menores de idade. O problema é que vimos essa discussão sobre controle de armas ser distorcida - como aconteceu com o debate sobre a reforma da saúde, quando surgiram rumores de "tribunais da morte", painéis governamentais que selecionariam quem receberia tratamento médico.

 

A governadora do Arizona, Jan Brewer,iniciou uma operação para minimizar o efeito do massacre. Como esse caso poderá afetar a imagem do Estado?

 

Mesmo que esse episódio pareça um ato individual, ele ajudará a engrossar a imagem estereotipada que grande parte da América tem sobre o Arizona como lar de extremistas. O Estado possui, de fato, uma quantidade considerável de grupos supremacistas, especialmente engajados nas leis anti-imigração. Na última década não só no Arizona, mas em todo o país, houve um aumento do número de grupos extremistas. Isso pode ser explicado em parte pela facilidade de qualquer um montar um website e falar o que quiser. A lei americana é muito clara a esse respeito. O preconceito e o ódio, assim como a incitação abstrata e indireta à violência, é um direito de livre expressão protegido pela Constituição.

 

Qual a importância da atitude de Obama neste momento? Ele poderá capitalizar dividendos políticos?

 

Obama, assim como Clinton depois do ataque à bomba em Oklahoma City, em 1995, precisa agir como presidente, não como um político. Quanto menos tentar explorar isso politicamente, melhor. Ele precisa mostrar empatia e usar o momento para unir as pessoas. Se conseguir fazer isso, será um ganho para ele e para o país.

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