Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

Quantidade não se traduz em qualidade

Volume de teses e artigos é grande, mas impacto, pequeno

Mariana Mandelli e Alexandre Gonçalves, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2011 | 00h00

O número de títulos conferidos pela USP não atrai só elogios. Para alguns pesquisadores, deveria levar gestores públicos a um exame de consciência. A ciência do País - em geral - e a da maior universidade da América Latina - em particular - ainda têm impacto tímido no cenário mundial.

 

A USP é responsável por 25% da produção acadêmica nacional. Forma um porcentual semelhante dos doutores no País. Mas não alcança posições empolgantes nos principais rankings internacionais. Na lista do Instituto de Educação Superior da Universidade de Xangai Jiao Tong, ficou na 143.ª posição. No índice do jornal The Times, obteve o 232.º lugar. Em 2009, por exemplo, a USP publicou praticamente o mesmo número de artigos que a Universidade Stanford - mas os da instituição americana receberam três vezes mais citações que os da brasileira.

 

Veja também:

 

linkUSP festeja 100 mil títulos de mestrado e doutorado

linkProfessores pioneiros dão valor à titulação

linkRenúncia pessoal e profissional marca período

 

O reitor da USP, João Grandino Rodas, considera a posição da USP nos rankings "boa", mas afirma que ela "pode e deve melhorar". Para o físico José Goldemberg, que construiu sua carreira na universidade, é preciso fazer com que a quantidade de teses e artigos científicos se transforme em qualidade. "Publicar muito não significa publicar bem", resume.

 

Sérgio Ferreira, do Departamento de Farmacologia, em Ribeirão Preto, destaca que muitas teses de doutorado não podem ser consideradas ciência. "Não devemos confundir pesquisa com pós-graduação", aponta o cientista, que realizou estudos importantes na área de analgésicos anti-inflamatórios. "Quando você obriga um estudante a publicar vários papers em um período curto, ele pode publicar porcaria. É o caso da maioria dos trabalhos brasileiros. Só foram feitos para cumprir uma demanda burocrática. Mas isso não é ciência: é burocracia."

 

O biólogo Marcelo Hermes-Lima, da Universidade de Brasília (UnB), vai mais longe. "Metade da produção científica nacional é lixo", afirma, sem rodeios. "Não acredito que o número de pessoas interessadas em fazer ciência cresceu. O que aumentou foi o número de pessoas atrás de um título para enfeitar o currículo." Ele atribui o aumento no número de mestres e doutores no País a uma política "fast food" para julgar produção acadêmica e conferir títulos. Coeditor da revista científica PLoS One, argumenta que ninguém é reprovado nas bancas de mestrado e doutorado. "Não é academicamente honesto. Os avaliadores são escolhidos para garantir a aprovação", critica.

 

Novas ideias. Goldemberg reconhece uma resistência à aplicação de critérios meritocráticos. "Quando fui reitor da USP (entre 1986 e 1990), decidimos publicar um relatório com os artigos mais importantes feitos pelos pesquisadores da universidade", recorda. "Quem não tinha nada relevante para mostrar, reclamou." Ele diz que a atual Pró-Reitoria de Pesquisa está no caminho certo ao entregar recursos diretamente aos pesquisadores, com base no impacto da ciência que realizam, em vez de pulverizar o dinheiro de forma igualitária. "A melhor forma de estimular excelência é premiar quem faz um bom trabalho."

 

A química Ohara Augusto coleciona vários artigos científicos sobre radicais livres que alcançaram excelente impacto nos últimos anos. Coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Redoxoma, pondera que há muita pressão hoje por inovação. "Ninguém é contra inovação", afirma. "Mas precisamos melhorar o nível da ciência nacional para ter ideias realmente novas. Até lá, só faremos melhoras incrementais."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.