Quanto vale um vinho?

Está aberta a temporada de degustações e especulações sobre os preços dos grandes produtos de Bordeaux

David Jolly, International Herald Tribune,

09 Abril 2009 | 09h09

Os maiores connaisseurs reúnem-se a cada primavera em Bordeaux, desde o início dos anos 1970, para as degustações, conhecidas como campagne primeur. Mas isso nunca aconteceu em meio a uma recessão tão profunda, após um mercado tão borbulhante. Os salários inflados dos anos gloriosos de Wall Street e o dinheiro barato para a população em geral, que formaram uma bolha em imóveis, ações e outros ativos, produziram também a bolha do vinho. O sistema en primeur, ou futuros de vinhos, funciona em benefício dos châteaux produtores, rendendo-lhes dinheiro para uma parte do produto enquanto ainda está no barril. Investidores e consumidores têm a chance de comprar vinho a preços com potencial para aumentar substancialmente. As cotações futuras de vinhos variam amplamente segundo a qualidade da safra. Entretanto isso pareceu mudar depois que um 2005 excepcional criou uma espiral ascendente dos preços. As safras de 2006 e 2007 foram apenas médias, mas os preços não caíram, mantidos no alto por um excesso de novos ricos perdulários. Agora, muitos dos especuladores que empurraram as cotações para níveis exorbitantes desapareceram ou passaram de compradores a vendedores na tentativa de levantar dinheiro para cobrir suas apostas excessivamente alavancadas. E os banqueiros e traders que não pensavam duas vezes para detonar centenas de dólares numa garrafa agora estão receosos de perder suas bonificações, quando não seus empregos. Por isso, alguns compradores estrangeiros decidiram não comparecer às degustações deste ano, queixando-se de que os principais châteaux não aceitariam que num mercado tão debilitado os preços devam cair. Alguns negociantes menores, cujas vidas dependem de vender o vinho, incluindo alguns intermediários de Bordeaux conhecidos como négociants, estariam ameaçados de falir. Simon Staples, diretor de vendas dos vinhos finos Berry Bros. & Rudd, em Hampshire, na Inglaterra, afirmou que a distância entre as expectativas de preços sustentadas por mercadores de vinhos e as dos châteaux, sobre o que se espera ser uma safra decente, mas não excelente, foi a maior que ele viu em duas décadas. Ele acrescentou que os châteaux principais esperam cortar em 15% os preços sobre os en primeur de 2007 para mostrar boa fé, "mas cortar o preço em 50% a 60% é a única coisa que vai funcionar". Staples chamou a atenção para o exemplo do Château-Lafite Rothschild, um Bordeaux Premier Cru que subiu de 675 libras, ou US$ 955, a caixa de 12 garrafas, em futuros de 2002, para 4 mil libras a caixa para 2005 - que ele qualificou de "a melhor safra que eu já provei". Mas apesar dos anos seguintes apenas médios, o preço só caiu para 3.500 libras em 2006 e 2.800 libras em 2007. Ele estimou que custa ao château de 10 libras a 13 libras para fazer uma garrafa do vinho. Tanto a Christie’s como a Sotheby’s, as casas leiloeiras, dizem que as vendas continuam fortes em seus leilões, que têm como tradiçao oferecer garrafas excelentes. E as pessoas não reduziram seu consumo total de vinho, segundo Lulie Halstead, presidente executiva da empresa de pesquisa e consultoria Wine Intelligence. "Mas o que estamos vendo é que as pessoas estão procurando preços um pouco mais baixos", disse. Segundo ela, os consumidores estão "gastando menos em restaurantes e comprando vinhos mais caros para ostentar em casa". As previsões baseadas no clima durante a temporada de cultivo do ano passado sugerem que o Bordeaux 2008 se classificará como médio para muito bom. Os châteaux deverão divulgar seus preços para a nova safra até o fim de junho, com base em grande parte nos burburinhos das avaliações da semana passada. Staples afirmou que se os principais châteaux decidirem que o mercado não suportará seu preço, eles têm caixa suficiente para simplesmente manter a safra 2008 fora do mercado, retendo-a por até dez anos se for preciso, quando os vinhos estariam prontos para serem vendidos a varejistas e restaurantes. Ele se disse otimista, porém, de que as negociações serão bem-sucedidas. Há preocupações, entretanto, com os muitos produtores menores de Bordeaux, que precisam da liquidez que as vendas futuras proporcionam. Em particular, os comerciantes de vinhos que dependem de vendas en primeur e os négociants - que agem como intermediários entre os châteaux e o mercado em geral - poderiam ser duramente atingidos. O crítico americano de vinhos Robert Parker observou a mesma coisa em novembro, prevendo em seu blog que haveria "muitas baixas". Numa mensagem por e-mail na semana passada, ele também pareceu pessimista. "Em termos de preços de vinhos, mesmo a ponta do luxo está fraca, mas não caiu tanto como imóveis, arte e ações", disse Parker. "Entretanto, a compra de vinhos de ponta se desacelerou consideravelmente, e suspeito que o que se desenrolará nos próximos seis meses derrubará ainda mais os preços." David Sokolin, um negociante de vinhos finos de Bridgehampton, Nova York, observa outro obstáculo potencial. "Se os produtores cortarem os preços suficientemente para o en primeur de 2008, para movimentar seu produto, eles poderiam solapar os preços da safra 2007", disse ele. Isso prejudicaria comerciantes e investidores que ainda retêm a safra passada porque seus estoques desses vinhos perderiam valor. Todos os produtores de Premier Cru, ou os de mais alta classificação - Château Lafite Rothschild, Château Margaux, Château Latour, Château Haut-Brion e Château Mouton-Rothschild - não atenderam a pedidos de entrevistas. Mas Jean-Guillaume Prats, diretor do Château Cos d’Estournel, um Bordeaux Second Cru, reconheceu que os preços caíram nos últimos seis meses. "Isso é verdade para todos os vinhos finos do mundo", disse ele, "e isso é verdade também para muitos artigos de luxo." Prats sugeriu que os produtores buequem um entendimento com os comerciantes. "A especulação não está na ideia de ninguém neste momento, em nenhuma área", acrescentou. "É bom que o mercado esteja voltando aos fundamentos." Angélique de Lencquesaing, uma das fundadoras do iDealwine, um site de leilões online em Paris, disse que será difícil produtores aceitarem preços mais baixos. "Na Inglaterra e outros países, as pessoas têm uma visão do vinho como um produto financeiro cujo valor pode subir ou descer", disse ela. "Na França, o vinho é sagrado."

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