Quaquilionários da 'Forbes'

Na lista dos 15 nababos ficcionais da revista econômica, Tio Patinhas reina absoluto, seguido pelo vampiro Carlisle Cullen, de 'Crepúsculo'

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h50

Ainda é o megaempresário mexicano. Com um patrimônio de US$ 74 bilhões, Carlos Slim é o homem mais rico do mundo. Tio Patinhas é o Slim do universo ficcional, o personagem mais rico do planeta. Sentado numa fortuna estimada em US$ 44,1 bilhões e realimentada pela constante valorização do ouro, o usurário tio do Pato Donald não para de enriquecer.

Os cálculos acima foram feitos pela revista Forbes, que de uns tempos para cá passou a monitorar não só as maiores fortunas que de fato existem, como as de Slim, Bill Gates e Eike Batista, mas também as que só existem no imaginário (nos livros, nos gibis e na tela), como a do Tio Patinhas. Como? Comparando dados recolhidos nas histórias de cada personagem aos valores das commodities do mundo real e às flutuações do mercado internacional de ações.

Na lista dos 15 nababos ficcionais da Forbes (figuras mitológicas e folclóricas não são levadas em consideração, o que explica a ausência do rei Creso, por exemplo), o avarento pato criado por Carl Banks para a Disney em 1952 permanece absoluto em primeiro lugar desde a instituição do ranking, alguns anos atrás. Sim, a brincadeira não é nova, mas só este ano, me parece, adquiriu repercussão internacional.

As maiores novidades de 2011 foram a inclusão de outro representante do reino animal (o dragão Smaug de O Hobbit, que aparece em sétimo lugar) e o retorno à elite argentária de Mr. Monopoly (aquele velhinho com cara de banqueiro do jogo Monopólio, em nono lugar) e Gordon Gekko (o inescrupulosíssimo especulador de Wall Street celebrizado na tela por Michael Douglas, firme na 14ª colocação).

Fácil explicar a ascensão de Smaug: o dragão rubro-dourado da Montanha Solitária, cria de J.R.R. Tolkien, é dono das últimas reservas de mithril, a fabulosa "prata dos anões", que por ser leve como uma pluma e mais forte que o aço vale mais que o ouro. Daí os seus US$ 8,6 bilhões em pedras e minerais preciosos. Mr. Monopoly e Gekko voltaram de uma temporada atrás das grades: o velhinho depois de inocentado num caso de apropriação indébita de fundos e o ganancioso investidor após cumprir pena por fraudes no sistema financeiro (foi solto em 2001, previu a bolha de três anos atrás e, como "o dinheiro nunca dorme", entrou de novo na roleta de Wall Street e acumulou US$ 1,1 bilhão).

O bilionário número dois, com US$ 6 bilhões a menos que o Tio Patinhas, é Carlisle Cullen, o galante vampiro da série Crepúsculo. Como um médico de província pôde acumular ao longo da vida US$ 36,2 bilhões? Mole: vivendo (e investindo corretamente) durante 370 anos. Apesar de também "imortal" e da fortuna que há séculos se acumula na Caverna da Caveira, Kit Walker, o Fantasma, não entrou na lista, omissão tão surpreendente quanto as ausências dos vilões Lex Luthor e Wilson Fisk, o Rei do Crime.

Em terceiro lugar, com US$ 13,5 bi, ficou Artemis Fowl II, o mestre do crime organizado dos romances de Eoin Colfer, que desde os 10 anos administra os "negócios" da família, cada vez mais bem-sucedidos com a ajuda das novas tecnologias que Artemis domina como ninguém. Segundo a Forbes, o Facebook teria sido inventado por ele - com o pseudônimo de Mark Zuckerberg.

A entrada de Artemis abalou a hegemonia de Riquinho, que até então ostentava o título de "a criança mais rica do mundo". Ele agora é a segunda criança (e o quarto colocado) da lista. Nos quadrinhos desde 1953 e encarnado no cinema por Macaulay Culkin, Richie Rich é o protótipo do filho único que pode ter (e tem) tudo que quiser, menos a amizade desinteressada de outros garotos. Mas, com US$ 9,7 bilhões de patrimônio, pode sobretudo se dar o luxo de não invejar o prestígio maior de Charlie Brown, que, como é sabido, complementa a sua modesta mesada vendendo limonada na porta de casa.

Quem ainda se lembra de Jed Clampett, aquele caipirão que descobriu petróleo por acaso, lá pros lados do Missouri, e, podre de rico, foi ser um estranho no ninho de Beverly Hills? Pois fique sabendo que o velho patriarca da Família Buscapé ocupa o quinto posto do ranking. Ganhou US$ 9,5 bilhões com o ouro negro, e muito mais deverá lucrar com a atual crise na Líbia. Dois super-heróis dos quadrinhos, Tony Stark (o Homem de Ferro) e Bruce Wayne (Batman), só não ficaram encostados um no outro porque Smaug se interpôs entre os dois. Stark, um gênio da engenharia, montou uma indústria avaliada em US$ 9,4 bi. Wayne vive de ações, que no último pregão valiam US$ 7 bilhões.

Fecham a lista três personagens cinematográficos e três televisivos. Arthur Bach, aquele parasita britânico que vive de torrar uma herança familiar (ainda lhe restam US$ 1,8 bilhão), enchendo a cara em Nova York e o saco dos espectadores em cinco continentes (ontem Dudley Moore, hoje Russell Brand), conseguiu pegar o décimo lugar, superando por pouco a poderosa empresária da indústria de informática Jo Bennett, a personagem de Kathy Bates na telessérie The Office (US$ 1,2 bilhão), o superpatife C. Montgomery Burns de Os Simpsons (US$ 1,1 bilhão), o bad boy janota Chuck Bass da telessérie Gossip Girl, o já citado Gordon Gekko e o colecionador de tapetes Jeffrey Lebowski, o grande Lebowski dos irmãos Coen, que logrou ganhar mais dólares sentado (numa cadeira de rodas, desde a guerra na Coreia) do que o resto da humanidade de pé.

Senti a falta de pelo menos três grandes personagens literários notoriamente abastados: Jay (o Grande) Gatsby, de F. Scott Fitzgerald; o Capitão Nemo, de Júlio Verne; e Edmond Dantès (o Conde de Monte Cristo), de Dumas. E também de Charles Foster Kane, Daddy Warbucks (dos quadrinhos de Aninha, a Órfã), Auric Goldfinger (o magnata do ouro que quase acabou com a raça de James Bond), Willy Wonka (o festivo tycoon do chocolate) e a abjeta dalmaticida Cruella De Vil.

Papai Noel? Dois caveats: tem raízes folclóricas e há controvérsias, entre os leitores mirins da Forbes, sobre seu status ficcional.

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