Denis Piel/Divulgação
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'Que eu possa jazer no chão e dormir'

Em 'Blue Nights', lançado nos EUA, Joan Didion fala da filha adotiva, que morreu de uma doença brutal em 2005

Gary Indiana, Bookforum

09 de setembro de 2011 | 19h58

Se vivermos tempo o bastante, o pesar se torna uma cicatriz recorrente na paisagem. A morte apaga os pais, os amigos e os cônjuges do mapa do nosso mundo, desertificando e encolhendo o terreno. Até a morte de pessoas de quem não gostávamos especialmente provoca a inquietante sensação de que a nossa própria extinção está correndo ao nosso encontro, certa e impensável.

Não esperamos perder nossos filhos. Esta possibilidade foge à ordem natural das coisas, representando o confisco das possibilidades. "Esquecer o assombro, o terror, o caráter absolutamente definitivo deste fato, ainda que por um momento, é vivenciá-lo novamente como da primeira vez", escreve Rudolph Wurlitzer em Hard Travel to Secret Places, um livro sobre a morte de Ayrev, o filho de sua mulher, Lynn Davis, aos vinte e um anos. Encontramos o mesmo estado de choque e torpor no novo livro de memórias de Joan Didion, Blue Nights: "Uma coisa dessas nunca deveria ter acontecido com ela". "Ela" é Quintana, filha adotiva de Joan, que morreu em 2005 depois de uma doença brutal que começou como uma gripe, evoluiu para uma pneumonia e então tornou-se um quadro extremamente grave complicado pelo choque séptico e pela "infecção generalizada".

"Houve uma época em que repassei muitas vezes na imaginação cenas como esta e outras, arranjando-as como numa pose para a câmera, tentando encontrar algum tipo de ordem, um padrão", é o que nos conta Carter, ex-marido de Maria Wyeth, no início do romance Play It as It Lays, da mesma autora. Blue Nights é uma espécie de montagem tensa, examinando momentos da vida de Quintana como peças de um quebra-cabeças amontoadas numa caixa. Trata-se de uma elegia, não apenas em homenagem à filha perdida como também a amigos que morreram, ao casamento dela com John Gregory Dunne, de quem é viúva, e a um modo de vida antigo, de uma época em que a vida parecia fazer sentido. Joan lamenta "como deixei de dar o devido valor ao momento quando este estava presente".

Neste retrato em forma de mosaico, Quintana é uma criança surpreendentemente madura que, criada em Hollywood por pais que eram roteiristas além de romancistas, "sabia o que faziam os agentes" já aos quatro anos de idade e, mais ou menos na mesma época, decorou uma casa de bonecas que incluía espaço para uma sala de projeção "e mais o equipamento que for necessário para o som em formato Dolby". Às vezes, o leitor pode inferir que a exposição precoce aos sets de filmagem e outros elementos frequentemente rearranjados do show biz teria produzido uma certa dissonância cognitiva: "Dick Moore foi o fotógrafo de Roy Bean - O Homem da lei, mas ela parecia não associar o Dick Moore que encontrou no Hilton Inn, em Tucson, ao Dick Moore que encontrou na nossa praia".

Joan descreve uma pessoa drasticamente mutável - diagnosticada, após o que somos levados a crer que teria sido uma série de consultas psiquiátricas, com "transtorno de personalidade limítrofe (borderline)". Isto tinha muito a ver com o medo natural do abandono sentido por aqueles que foram adotados, algo que Joan demorou para descobrir. O medo do abandono ainda não fazia parte do repertório conceitual da adoção quando Quintana nasceu. Joan nos conta que imaginou que a filha adotiva fosse 'terra incognita', e supôs que 'terra incognita' significasse 'livre de complicações', uma folha em branco.

A técnica narrativa de Joan, filtrando as memórias numa ordem não sequencial, revisitando-as posteriormente para amplificar os detalhes mais reveladores, muitas vezes ignorados, reflete um distinto desejo de fazer com que as memórias "se somem", proporcionando o tipo de quadro meticulosamente construído que costuma concluir os romances dela. Ecos de obras anteriores são entrelaçados ao texto: "Que eu possa jazer no chão e adormecer", frase que neste livro é dita por Quintana, aparece, acredito, em Democracy, enquanto o refrão segundo o qual informações inúteis "não se aplicam" pertence a Maria Wyeth, de Play It as It Lays. Vários episódios deste livro já apareceram em O Ano do pensamento mágico, elaborados de outra maneira, como cenas de um filme reprisadas sob outro ângulo. Os eventos transformaram a narradora desde o momento em que ela escreveu o livro anterior, alteraram a perspectiva dela, mudaram o seu foco.

Blue Nights revela muito a respeito do método de escrita de Joan, que se assemelha incomumente ao processo criativo dos roteiros de cinema. Os personagens têm "arcos" perceptíveis; a estrutura episódica chega a "pontos da trama" estrategicamente posicionados. Cenas são lembradas, como flashbacks num filme, com o auxílio de velhas fotografias, convites de casamento e santinhos, peças do vestuário de Quintana.

Uma atenção aos menores detalhes forenses evoca imagens elaboradas com uma linguagem notável pela economia de palavras - muitas vezes no sentido literal do forense: termos médicos, sintomas, procedimentos, instrumentos, os nomes arcanos que identificam as entranhas humanas ("círculo arterial cerebral", "hemorragia cerebral", "hematoma epidural") que a autora aprende e emprega, como tambores mágicos ou contas de um rosário, para conseguir ao menos apreender verbalmente os acontecimentos incontroláveis. Joan retrata a dissonância entre aflição subjetiva e terminologia médica impessoal produzindo um efeito poderoso, como já tinha feito nas cenas de Democracy que se passam no hospital. Em Blue Nights, assim como em O Ano do Pensamento Mágico, a diferença está no fato de que Joan não estar inventando o roteiro - ela não tem controle sobre os eventos que está relatando, pois estes ocorreram de fato - e sim rearranjando a continuidade, destacando detalhes fundamentais, livrando-se dos diálogos supérfluos.

Joan tem plena consciência de que o reiterado olhar retrospectivo, lançado sobre a vida real em lugar de alguma história anterior inventada, não pode solucionar o mistério da personalidade de Quintana. A memória, embora inesgotável, é também um circuito fechado, um campo imutável de ruminação, promovendo, na melhor das hipóteses, respostas especulativas. A doença de Quintana nada teve a ver com as incompreensíveis contradições de sua personalidade; chegou de maneira indesejada e sem ser anunciada. Um relato da vida dela antes de adoecer não proporciona nenhuma lição a ser aprendida que torne mais relevante aquilo que finalmente ocorreu com ela. A menina era interessante. Era amável. Era inteligente e engraçada. Era perturbada. E havia algo que ela certamente não era - ao menos não de uma maneira predeterminada -: uma condenada.

O fato de certas coisas - às vezes as piores coisas - "simplesmente ocorrerem" é impossível de ser assimilado, particularmente para uma autora como Joan, cuja especialidade é descobrir por que as coisas ocorrem. O único "Por quê?" possível de ser respondido nesta história tem a ver com os chocantes detalhes de infecções, septicemia, tubos respiratórios, e monitores dos aparelhos da UTI. Joan não espera de fato que uma revisão dos eventos sequenciais ou a memória seletiva possam produzir um desfecho diferente, apesar de não poder escapar à fantasia de que poderiam, sim, fazê-lo. A memória serve em vez disso para manter Quintana viva e presente na consciência dela, como uma estratégia para retardar a conclusão do luto. Joan volta a ela aos vinte anos, aos quatro, aos trinta e sete, enquanto criança curiosa, estudante uniformizada, noiva, adulta independente, transformando-se continuamente em diferentes formatos e tamanhos, um espírito implacável e ferozmente querido.

O passado recordado passa gradualmente a se alternar com o tempo presente, quando a própria mortalidade de Joan invade incisivamente a consciência da autora. Ela percebe que está envelhecendo. Isto a apanha despreparada, uma armadilha disparada por constrangedores episódios físicos que ganham força até se tornarem os sintomas de um declínio irreversível. O pesar e o tempo confirmam o antigo temor de uma cascavel no berço do bebê, de um sorridente desconhecido empunhando uma faca. Aqui, como em outros momentos, Joan reúne todas as informações "objetivas" que consegue para compreender o que está ocorrendo com ela.

"Até hoje, vivi toda a minha vida", conta-nos Joan, "sem acreditar realmente que envelheceria". (Ela tem setenta e sete.) Se isto soa improvável, pense em como ninguém no mundo moderno se "ajusta" ao processo de envelhecimento até que este comece a se fazer sentir de maneira inexorável. Mesmo assim, o termo "ajuste" dificilmente se aplica ao caso. Cada grau de debilidade é seguido por outro ainda pior. Os artistas se mostram especialmente relutantes em reconhecer a chegada da velhice, convencidos não apenas de que a sua obra vai sobreviver depois deles como também de que manter-se trabalhando seria uma espécie de talismã contra a decadência e a morte. Existe algo de válido nesta crença - um trabalho significativo mantém as pessoas mais "vivas" do que a inércia. Mas a verdade física é que todos aqueles que vivem tempo o bastante vivenciam a lenta ruína que termina no pó, sinalizada pelas neuropatias e embolias e pela fragilização dos ossos e pelo encolhimento do corpo, pelo medo de cair na rua ou ser derrubado por um ciclista, por uma debilidade generalizada evidenciada pela dificuldade de enxergar, pela dor intermitente e pelos lapsos cognitivos.

Joan estabelece uma linha do tempo para a sua crescente falta de firmeza. Um grave tombo no apartamento dela a conduz a uma ala cardíaca que não é o seu lugar, a exames de ressonância magnética e tomografias. Um neurologista a encaminha para uma clínica de medicina esportiva onde, incentivada pela boa aparência física dos demais pacientes, ela pensa, animada, que "essas coisas funcionam mesmo", apenas para descobrir que "aqueles pacientes em particular eram na verdade jogadores de beisebol do New York Yankees, tratando de pequenas lesões entre as partidas".

Joan consegue ser bastante engraçada em Blue Nights, demonstrando algo que se aproxima do humor negro. Obrigada a engolir "uma pequena câmera" na UTI do Hospital Presbiteriano de Nova York, ela nos informa que as imagens resultantes "não demonstraram qual era a causa do sangramento, mas demonstraram que, com sedação suficiente, qualquer um poderia engolir uma câmera bem pequena".

Por outro lado, existe o problema do medo. O problema da fragilidade. O esgotamento que se segue a todo esforço prolongado no sentido de "manter o embalo". O corpo não consegue mais se recuperar completamente depois de doenças e lesões. Há o otimismo de pioneira segundo o qual a decadência pode ser "consertada", seguido pela conclusão de que não há conserto possível. Há, finalmente, a inconsolável sensação de que quase tudo já se perdeu, e que aquilo que ainda resta é apenas a perspectiva de mais perdas. Trata-se de um livro que exigiu muita coragem para ser escrito; é preciso considerável força de espírito para lê-lo, já que este retrata uma realidade intolerável que a maioria de nós só reconhece quando não há mais escolha.

Num poderoso contraste com o relato intensamente pessoal de Joan, o livro Never Say Die: The Myth and Marketing of the New Old Age, de Susan Jacoby, é uma obra de jornalismo polêmico, semelhante a The American Way of Death, de Jessica Mitford. Há nele traços autobiográficos, mas a informação de que Susan tem sessenta e seis anos e anteriormente escreveu "ladainhas otimistas a respeito das alegrias e vantagens da nova velhice" para publicações como AARP Bulletin confere a este livro nada otimista uma certa aura de ríspida autoridade.

O tema de Susan é a maneira com a qual a maioria de nós envelhece, em oposição àquelas raras e geneticamente abençoadas almas que saltam de paraquedas depois de chegar aos oitenta ou praticam a medicina, escrevem livros e compõem música até chegar aos noventa. Armada com estatísticas críveis e os menos reconfortantes e mais plausíveis conselhos dos geriatras e outras testemunhas especializadas, Susan ataca as fantasias a respeito do processo de envelhecimento atualmente em voga entre a agora grisalha geração dos baby boomers - "os sessenta são os novos quarenta", "a idade não passa de um número", a crença de que regimes de exercícios e dietas rigorosas podem reverter os efeitos do tempo, as afirmações de gurus da "prorrogação da vida" que sugerem que logo viveremos até os 140 anos, previsões de que uma "cura" para o próprio envelhecimento será descoberta pela ciência médica.

Susan concorda que, "se estiverem em boa situação financeira, se tiverem boa saúde e se possuírem cérebros funcionais", os "velhos" de hoje - com isto ela se refere às pessoas de sessenta e setenta anos - podem desfrutar os últimos anos da vida com mais qualidade do que a geração anterior. Mas estamos falando em muitos 'ses', e mesmo aqueles que se enquadram nesta minoria provavelmente sentirão o limite se aproximar quando chegarem aos oitenta anos ou mais - a "velhice dos velhinhos".

A preocupação, neste caso, está em como a sociedade trata os idosos, e naquilo que pode ser feito para aliviar o sofrimento em lugar de "curar" a fragilização que acaba dominando a maioria de nós, principalmente aqueles que não são ricos, não contam com sistemas viáveis de apoio e não imaginam que "os melhores anos de nossas vidas" estão à nossa frente. Susan refuta a ideia de que "os idosos" costumavam ser mais valorizados nos EUA do que são atualmente; evidências históricas indicam que a "cultura da juventude" está em ascensão desde a fundação da República.

Após a Revolução Americana, a não ser entre aqueles em melhor situação, a vida familiar em geral não costumava englobar os cuidados com os membros idosos, de quem esperava-se que garantissem o próprio sustento. Na ausência de programas assistenciais, "alguns municípios chegaram a leiloar os moradores idosos mais pobres a agricultores que precisavam de trabalhadores".

As coisas não melhoraram muito durante o século dezenove, quando Emerson, expressando um sentimento comum, escreveu que "a natureza abomina a velhice", e a industrialização posterior à Guerra Civil tornou obsoletos o conhecimento e as habilidades dos mais velhos. No século vinte, melhorias no padrão de vida prolongaram a longevidade, criando uma população muito maior de pessoas que sobreviviam até completar setenta, oitenta e noventa anos, à qual faltavam os recursos adequados para a participação na vida da sociedade.

As coisas melhoraram pouco até hoje, e a população como um todo está envelhecendo. Conforme aumenta o número de idosos, o mesmo ocorre com a demanda por atendimento médico sofisticado - e com os custos proibitivos associados a este. Além disso, as condições médicas que exigem cuidados se tornam mais variadas e numerosas conforme um número cada vez maior de pessoas vive cada vez mais.

Talvez a mais difícil dentre estas condições seja o Mal de Alzheimer, que não consiste num tranquilo estado de demência, e sim uma brutal doença de desenvolvimento gradual que faz com que a consciência do paciente seja aos poucos apagada, até que este finalmente se esqueça de como fazer para respirar. Trata-se de uma condição nem um pouco "rara". Na verdade, o Alzheimer é assustadoramente comum, imune aos comprimidos mágicos anunciados na TV, e afeta os idosos independentemente do seu histórico de cuidados consigo mesmos. Depois de completar sessenta e cinco anos, as chances de desenvolver o Mal de Alzheimer dobram a cada cinco anos.

Susan pesa as questões éticas envolvidas na eutanásia; as caras e às vezes insensivelmente prolongadas mortes prescritas pelo Medicare na ausência de "testamentos vivos"; os problemas específicos das idosas, que muitas vezes arcam com o fardo de cuidar de maridos velhos e costumam viver muitos anos mais do que estes. Ela considera deplorável a onipresente propaganda do "pensamento positivo" que insiste aos idosos que "busquem ativamente soluções" para os problemas da perda, depressão e crescente debilidade física. Susan recomenda que enfrentemos as coisas diretamente, sem buscar refúgio em hipocrisias que falam em "envelhecer com sucesso". "As pessoas têm direto à sua dor, à sua raiva e, por que não, à sua depressão... A afirmação deste direito me parece proporcionar um preparo muito melhor para o sofrimento e a perda do que a ideia de vestir uma reluzente armadura emocional com base na ideia de que algo bom sempre advém de algo ruim."

Este livro eminentemente sensível pondera a respeito das piores dificuldades encontradas pelos velhos, com horríveis detalhes e ênfase particular no drama dos extremamente velhos, aqueles que sentem que não são mais úteis para ninguém, nem mesmo para si mesmos. Não me sinto totalmente à vontade com as conclusões de Susan, como por exemplo naquilo que tange à possibilidade de aceitar ou não uma dependência geral em relação à tecnologia médica; alguns de nós - acho que um número maior de pessoas do que supõe a autora - gostariam de permanecer vivos por tanto tempo quanto for possível, mesmo com uma "qualidade de vida" muito reduzida. Ainda assim, é importante o fato de ela debater estes temas de maneira tão completa e aberta.

As ideias receitadas por Susan para melhorar a situação soam ocasionalmente dúbias - ela elogia a cidade de Nova York como "o melhor lugar para se envelhecer nos EUA", citando "benefícios" como a gratuidade do serviço de entregas das farmácias, algo que há muito desapareceu da maioria dos bairros -, mas a defesa que ela faz de um pensamento mais informado e humanizado em relação aos últimos anos da vida merece muita atenção agora, enquanto os Estados Unidos vão à falência e sua geração baby boomer entra, relutantemente, no trecho final de sua jornada.

Blue Nights (algo como Noites azuis), de Joan Didion, editora Knopf, 208págs., US$ 25

Never Say Die: The Myth and Marketing of the New Old Age (algo como Nunca fale na morte: o mito e o marketing por trás da nova velhice), de Susan Jacoby, editora Pantheon, 352 págs., US$ 28

O autor já publicou sete romances e seis livros de não ficção

Tradução de Augusto Calil

© Bookforum, set/out/nov 2011, The Night Album, por Gary Indiana

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