Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Que saudade da presença...

Representar é tornar presente o ausente, é trazer para perto o distante; o problema é a falsificação

Renato Janine Ribeiro,

02 de fevereiro de 2013 | 16h00

É comum se discutir que mudanças a internet trouxe para as relações humanas. Como é este mundo pós-pós-moderno, diferente de tudo que antes existiu? Uma imagem ilustra o que uns chamam de perplexidade, uma imagem frequente, hilariante - e banal: cinco ou seis pessoas juntas, mas cada uma mergulhada em seu laptop ou celular. Parecem ser um grupo, só que não são, cada uma fechada em seu virtual.

Mas isso é mesmo uma novidade? Porque o distanciamento de quem fisicamente está próximo é um tema antigo na filosofia. Ele remonta pelo menos a Platão, no século 5º antes de Cristo.

Em seu diálogo Fedro, o filósofo grego conta que o ministro Tot apresentou ao faraó Tamus uma série de invenções. A escrita, disse Tot, permitiria guardar a memória do passado e transmitir mensagens a distância, superando as barreiras do tempo e do espaço. Mas o faraó a condena: ela permite a mentira, a falsidade. Assim, desde a Antiguidade - comenta Jacques Derrida - se valoriza a presença e se desconfia da ausência, da distância, da representação. Representar é tornar presente o ausente, é fazer que o morto ou o longínquo esteja conosco; o problema é que assim é fácil falsificá-lo. É o que dirá outro filósofo, Rousseau, no século 18: quando você fala com alguém na sua frente, os gestos e o olhar enriquecem a comunicação; já um texto escrito pode ser manipulado à vontade.

Os índios brasileiros também entram nessa notável querela. Em 1938, Lévi-Strauss, que lecionava na USP e ainda não se tornara o importante antropólogo que foi, esteve entre os nhambiquaras. O chefe da tribo notou que o branco escrevia. Quando Lévi-Strauss encerrou a estada entre eles e deu os presentes de praxe, o chefe pediu para distribuí-los - e pegou uma folha de papel, fingindo ler nela o nome de cada um e o presente a ele destinado. O antropólogo ficou fascinado: um analfabeto intuía a essência da escrita - que segundo Lévi-Strauss é fundar um poder forte, fugir ao diálogo, suprimir a igualdade, em suma, dar um golpe de Estado na sociedade.

Ora, quais invenções aumentam a representação, substituindo a presença, o olho a olho, o tête-à-tête, pela distância, falsidade ou manipulação? Primeiro, a escrita; depois, a imprensa; em nossos dias, a internet. Mas imprensa e internet não nasceram do nada. Cada uma potencializou o que já existia. Cada uma amplia as possibilidades da comunicação a distância. Com isso, cada uma castiga a presença. Essa se torna dispensável, inferior, secundária. O avanço da amizade online, que muitas vezes quando vamos conferir é falsa (as pessoas são mais feias ou pobres do que se disseram), desvaloriza a amizade presencial. Sem dúvida, essas formas de comunicação permitem que as pessoas saiam de seus recantos fechados. Um homossexual numa aldeia conservadora vive um inferno. Pelo acesso à rede, pode se fortalecer graças à solidariedade de amigos a distância. Mas isso já acontecia com o telefone, o correio ou mesmo com a imaginação. Uma amiga, que viveu na década de 1980 numa cidade machista do interior, proibiu de entrar em sua casa o melhor amigo do marido porque o visitante atacava sem parar as mulheres. O que deu forças a ela para isso? Pensar nos milhões de mulheres que estavam mudando a vida. As mídias e a internet aumentam esses referenciais, mas não os tiram do nada.

Perdemos muito com o declínio da presença? Seguramente. A presença, mesmo quando pobre, é de carne e osso. Nela há um cerne que nada pode substituir. O sexo virtual não substitui o intercurso. Há no convívio físico - e não apenas sexual - riquezas únicas. Isso não significa que necessariamente a presença traga a verdade, e a distância a mentira, como queriam Platão, Rousseau e Lévi-Strauss. Aliás, é exatamente nesse ponto que Derrida os contesta, em sua Gramatologia; mas os pontos seguintes Derrida não aborda.

Há aquilo que só a presença pode trazer. Suponhamos um excesso de representação, a virtualização maciça da "res", a substituição do toque presencial pelo touch da tela: tudo isso é insuficiente. De vez em quando, um jornalista passa uma semana somente se relacionando com o mundo pela internet. Disso resulta um artigo divertido e, geralmente, de final preocupado: uma versão atenuada de quem passa um ano só no fast-food. Mas qual é o grande problema dessa, digamos, hipoexperiência? É ser uma experiência pobre. O essencial na vida é experimentar. Não há palavra que resuma melhor a capacidade criativa do ser humano. Ora, experiência exige diversidade. Quem passa a vida lendo também se limita, tal como quem leva a vida na balada ou na praia. Proponho chamar algumas dessas experiências de "hipo", o prefixo grego para a posição inferior ou a escassez, e outras, por que não, de "hiper", prefixo para posição superior ou mesmo excesso. Há experiências que enriquecem, outras que atrofiam. Mas geralmente o fato de ter experiências diferentes ou mesmo opostas já é enriquecedor. E por isso mesmo o problema que muitos veem na internet não é apenas ela: é o fato de se tornar um vício, uma adição. Não temos registros que nos digam se a escrita, quando surgiu, gerou seus viciados, mas sabemos que a imprensa, sim, ou pelo menos a leitura do impresso: Dom Quixote e mais tarde Madame Bovary são os grandes exemplos. Ora, o justificado medo de danos até para a saúde física, para não dizer a mental, de se ficar 24/7 plugado na rede, é uma radicalização da leitura como vício; um medo que vem de longe.

RENATO JANINE RIBEIRO, PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, É AUTOR DE A SOCIEDADE CONTRA O SOCIAL - O ALTO CUSTO DA VIDA PÚBLICA NO BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)

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