Que tal eliminar engarrafamentos?

Dia desses, fui deixar uma amiga no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Lá em casa, quem dirige é minha mulher. Na ida, era madrugada, percebemos que o sentido contrário da Dutra – por conta de um engavetamento de caminhões na via expressa – estava engarrafado. É a típica história do cotidiano em São Paulo.A diferença é que temos um GPS no carro. Com um aparelho destes, que tem gravado o mapa da cidade e, via satélite, informa qual o melhor caminho pegar, não é difícil driblar o trânsito ruim. Basta informar que rua ou avenida queremos evitar e o mapa eletrônico retraça o percurso, por mais obscuro que seja. O problema dos aparelhos de GPS é que eles são burros. O usuário precisa informá-lo se um determinado trecho está engarrafado. Isto exige a sorte que tivemos da última vez – ver que a rodovia estava ruim no outro sentido – ou uma neurótica vasculhada pelas rádios. O paulistano está habituado a isso e, em geral, já conhece as melhores rotas para driblar o trânsito no caminho de casa. O bom e velho repórter de rádio pendurado no helicóptero continua sendo a melhor fonte de informação instantânea sobre trânsito. Há uma solução melhor na praça. Ao menos, na praça americana. Se chama Dash e representa um novo conceito de GPS. A diferença é que este recebe sinal do satélite mas também emite sinal para uma central de servidores. O GPS em seu carro sabe a que velocidade você anda porque os satélites estão de olho em sua posição a cada segundo. A partir do momento em que servidores começam a tabular esta informação vinda de vários automóveis ao mesmo tempo, o sistema poderá ter um mapa ao vivo da situação do trânsito em cada cidade. O que os usuários do Dash vêem na tela é o mapa das vias como em qualquer outro GPS. Mas as vias são iluminadas com cores. Se verdes, o trânsito está livre – daí, gradualmente, para amarelo, laranja e vermelho. No momento em que entrou no carro o motorista já sabe como estará o caminho. Quem determina para o aparelho para onde deseja ir recebe até a informação de quanto tempo a viagem deve demorar. É o tipo de aparelho que promete revolucionar o problema do tráfego. Repentinamente, se um número suficiente de usuários tiver um Dash em mãos em São Paulo, mais e mais pessoas evitarão as vias principais tomando caminhos secundários. Ruazinhas ora tranqüilas terão o trânsito aumentado mas um número razoável de carros deixará as grandes avenidas. Talvez muitos, ao ver que a viagem para casa demorará uma hora a mais, decidam dar um tempo pelas redondezas do escritório. Dash mexe com a cabeça. Que faria um governo totalitário com ele? Da maneira como foi construído, a informação a respeito de cada automóvel é anônima. Seu carro informa localização e velocidade mas não identifica o dono ou placa do veículo. Mas poderia. Uma ditadura repentinamente alçada ao poder poderia mexer com o sistema de forma a saber quem está aonde. Não precisamos chegar num Estado de exceção. A Justiça não poderia apresentar um mandado exigindo a quebra do sigilo de GPS de um foragido? Para que permita total privacidade, é um sistema que terá de ser construído de forma a não identificar cada unidade por número de série ou qualquer outra forma. Nem precisa ir muito longe, basta ver outro produto que há por aí: chama-se Mologogo. É um software para instalar em telefones celulares que tenham GPS integrado. Mologogo é uma rede social. Se amigos o suficiente tiverem o programa, você saberá onde cada um está a cada momento. De repente, alguém que você não vê há muito está ali na esquina, quiçá disponível para um chope. É. Talvez o mundo do futuro tenha um bocado de assustador para nós todos. Seja como for. pedro.doria@grupoestado.com.br

02 Junho 2008 | 00h00

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