Quebradeiras, poético e sofisticado

Documentário inusitado na carreira do jornalista Evaldo Mocarzel faz uso de música, não tem narração e o visual é formalista

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

Verborrágico como podem ser os jornalistas, o agora cineasta Evaldo Mocarzel tomou uma decisão difícil: impôs-se a lei do silêncio. Seu novo filme - Quebradeiras, exibido em concurso no Festival de Brasília - não contém diálogos ou entrevistas. Contém imagens e - outra heresia na antiga doutrina de Mocarzel - música. Com esse novo dogma autoimposto, e a contribuição decisiva do fotógrafo Gustavo Hadba, o jornalista Mocarzel produz uma intensa, bela e iniciática imersão na vida das quebradeiras de coco-babaçu da região do Bico do Papagaio, região situada entre os Estados do Maranhão, Pará e Tocantins.

Não lhe interessa tanto a descrição factual desse modo de vida (não há, também, narração em off) e sim a sua apreensão poética. Algumas opções interessantes, como esmaecer as cores, produzem um efeito tocante na filmagem das matas. Foi uma contribuição de Hadba, que sentia necessidade de fugir ao colorido excessivo do patropi. Não apenas essa opção, mas o nível dos enquadramentos na câmera parada e a sensibilidade na composição de quadros resultam em linguagem visual sofisticadíssima, o melhor trabalho de Mocarzel nesse sentido.

Trabalho formal apurado não deve virar fetiche. Como diz Mocarzel, "a crítica cinematográfica idolatra exercícios de linguagem; mas a linguagem pela linguagem não me interessa, quero algo mais". Esse algo mais diz respeito à ética do realizador. No caso, um profundo respeito que sente em relação àquelas pessoas e seu modo de vida. Respeito também por um tempo que não é aquele tempo acelerado do homem da cidade, mas o tempo estendido, de certa forma circular, e aparece, reencenado, tanto no trabalho cotidiano das quebradeiras como em cantos rituais semelhantes a mantras. Situando-se entre o cinema etnográfico à maneira de Flaherty (Nanouk, o Esquimó, 1922) e o moderno documentário mineiro com sua vertente de videoarte, Quebradeiras, com sua poética íntegra, nem por isso deixa de ser político ou social. Muito ao contrário. O público entendeu essa proposta e, mesmo sendo filme difícil, foi respeitado e aplaudido.

O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Moraes (DF), primeiro longa de ficção em concurso, não deixa de ter seu encanto. Mesmo que se possam apontar falhas em seu roteiro, mesmo que as elipses abruptas se prestem à confusão, ainda assim passa uma verdade bruta do interior brasileiro, que lhe dá força. São personagens um tanto à deriva, que convivem em um posto de gasolina perdido no interiorzão (foi filmado no Mato Grosso). Um vendedor de CDs piratas (Bruno Torres), a dona do posto (Simone Iliescu) e um misterioso borracheiro (Luiz Carlos Vasconcellos) formam polos a partir dos quais as histórias se bifurcam, remetem ao passado e voltam para se resolver no presente. Nem sempre de maneira clara ou nítida, mas ainda assim com boa pulsão cinematográfica, algo não muito comum hoje em dia. Melhor um filme irregular, mas feito com paixão, do que se fosse bem-feitinho, porém anódino.

CURTAS

A mostra de curtas prosseguiu com bom nível e uma notável exceção - o excelente Recife Frio, de Kléber Mendonça Filho (PE). Em tom cômico, porém corrosivo, ele imagina o que aconteceria se a sua cidade, conhecida pelo clima tropical, virasse uma metrópole gélida. Foi, até agora, a maior consagração pública a um filme neste 42º Festival.

Dias de Greve, de Adirley Queirós (DF), Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos, de Camilo Cavalcante (PE) e Verdadeiro ou Falso, de Jimi Figueiredo (DF) também causaram boa impressão. Em especial o de Cavalcante, que recria um sertão mítico, a partir da hora da ave-maria, o momento de contrição dos sertanejos.

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