Quem é o inimigo?

Na última terça-feira, no final da tarde, o que deveria ser uma ocorrência policial normal se transformou em uma grande confusão com cores de absurdo e surrealismo. Ao receber uma ocorrência em um Distrito Policial (DP), o delegado de plantão constatou que o preso em flagrante havia fortes indícios de ter sido agredido pelos PMs que levaram a ocorrência ao DP. Ao escutar os relatos do criminoso, segundo o qual ele sofrera agressões e choques elétricos inclusive em seus órgãos genitais, o delegado encaminhou o preso até o Instituto Médico Legal (IML), que constatou as agressões. Fez aquilo que deveria fazer. De posse do laudo, o delegado deu voz de prisão ao encarregado da guarnição da PM. A decisão do delegado foi mantida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, mostrando que estava corretíssimo na atitude tomada. Por mais absurdo que possa parecer, o delegado foi ameaçado por outros PMs presentes no plantão policial onde também hostilizaram policiais civis e até mesmo um deputado estadual. 

Rafael Alcadipani*, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2015 | 21h00

O absurdo piora: o delegado teve que ser escoltado por um grupo de operações especiais até sua casa. Em qualquer lugar sério, todos os policias que ameaçaram o delegado seriam expulsos da corporação. Quem é do mundo policial tem poucas dúvidas de que o preso sofreu um 'esculacho', nome dado na gíria policialesca para a agressão de criminosos. O que explica esta violência barata e gratuita que estes PMs praticam contra as pessoas? 

Ser policial não é fácil no Brasil. A sensação de 'enxugar gelo' é constante. São baixos salários, péssimas condições de trabalho, cobranças e uma série gigantesca de outras dificuldades. Porém, a utilização da 'justiça da rua' não se explica apenas pela sensação de que por mais que se trabalhe, o problema da criminalidade não se resolve. 

Em 1978, John Van Maanen já relatava algo similar entre os policiais patrulheiros nos EUA. A 'justiça da rua' faz parte de uma lógica de cultura organizacional. Esta lógica tende a ser reforçadas nas relações informais. O policial bate no preso, ele conta para os demais que bateu, recebe reforços positivos de colegas e superiores. Isso vira não apenas algo natural, mas algo que o grupo considera como o que deve ser feito para se ganhar status. O policial que bate é considerado como 'machão' nos olhos dos demais. Ser considerado 'um homem de verdade' é extremamente importante em culturas organizacionais masculinas, por mais absurdo que seja o sujeito se achar 'macho' por bater em uma pessoa desarmada e algemada que não pode oferecer nenhuma resistência. Dentro desta lógica, o PM se sente o herói que vence o mal. O problema toma corpo quando a instituição não toma atitudes claras, duras e enérgicas mostrando que este tipo de comportamento não é aceito, tolerado ou reforçado. Isso não passa apenas por declarações formais 'estamos buscando os responsáveis' ou 'as maçãs podres serão retiradas', mas sim por conversas informais que não valorizem a violência como forma de ação policial. 

A maioria dos PMs vê as pessoas do mundo de uma maneira binária que gira em terno da dicotomia trabalhador/vagabundo. Há inúmeros estudos que mostram isso. O 'vagabundo' sempre deve ser punido e se possível morto. O problema é que as PMs nunca mataram tanto e nunca tivemos tantos problemas com a Segurança Pública no Brasil. Bater e matar não resolve. Infelizmente, as PMs brasileiras precisam terminar a transição para a democracia no trato com as pessoas. De nada adianta ficar esbaforindo contra quem mostra esta lógica perversa que faz o policial virar criminoso. 

Neste exato momento, o PM do caso do 103º DP está preso. Os que ficam nas redes sociais fazendo gritas para que a polícia arrebente e mate não vão sofrer nada na pele. O PM preso está com a sua família sem saber quando ele volta para casa. Por isso, é totalmente irresponsável ficar reforçando a lógica do 'esculacho', pois apenas o policial e o criminoso sofrem. Os bons policiais, que são muitos, defenderam a atitude do delegado que fez valer a força da lei. O criminoso deve ser punido com todos os rigores da Justiça. Sair desta regra é viver na barbárie que transforma quem deseja ser herói em preso ou em morto, nesta guerra de pobres contra pobres que mata pobres. Quem deveria fazer alguma coisa está dentro de Palácios, cercado por PMs que lhe batem continência todos os dias. O inimigo da polícia e da sociedade está em outro lugar protegido dos esculachos e do crime.

Rafael Alcadipani é professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP e visiting scholar no Boston College, EUA

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