Quem foi o louco que bolou esta corrida?

Nelson Piquet, morador do principado, definiu uma prova de Fórmula 1 em Mônaco: 'É como andar de moto na sala de casa'

LIVIO ORICCHIO,

04 Junho 2011 | 14h29

A primeira pergunta que o fã da Fórmula 1 estreante em Mônaco se faz, depois de ver a passagem dos carros a poucos metros do nariz, é exatamente esta: quem foi o louco que concordou com a corrida aqui? Lugar maravilhoso, tudo bem. Nada a questionar. A fama de o principado instalar-se numa das regiões mais lindas do mundo, o sul da França, logo se confirma pelas águas verdes e transparentes do Mediterrâneo, pelas praias, ainda que de pedras, pelas elegantes mansões que se sucedem no caminho, em vilas como Villefranche, Saint-Jean-Cap Ferrat, Eze-sur-Mer, e pelo horizonte de iates que mais poderiam ser classificados como navios privados.

Mas como entender que Vettel ter ganhado a corrida, domingo passado, com a média de 120,5 km/h? Isso é Fórmula 1? Nelson Piquet já definiu que correr nas ruas do principado "é como andar de moto na sala de casa". Também é o sarcástico Piquet, morador por anos no local, que recorre a um antigo ditado que circula com desenvoltura pelos boulevards da monarquia: "Sabe a única maneira de sair de Mônaco com uma pequena fortuna? É entrando com uma grande fortuna".

Idiossincrasias, de fato, marcam o prêmio. Trata-se, por exemplo, da etapa à qual os chefes de equipe mais levam convidados, a maioria já patrocinadores ou potenciais investidores. "Quem não gosta de ver seu investimento associado a beleza, riqueza, realeza?", pergunta Eddie Jordan, ex-proprietário da escuderia Jordan GP. O promotor do espetáculo, Bernie Ecclestone, lembra que muitos dos negócios estabelecidos entre equipes e patrocinadores são costurados nos dias da prova. "Não assinamos nenhum contrato aqui, mas defini vários negócios no meu barco", revelou Flavio Briatore. O barco a que se refere é um iate de três andares, um dos mais imponentes no porto, o Force Blue, não por acaso com as iniciais do controverso ex-dirigente, campeão do mundo como diretor da Benetton e da Renault. "O GP de Mônaco representa o maior marketing de relacionamento do mundo", afirma.

Mas é o mesmo Ecclestone quem cobra do tradicional Automóvel Clube de Mônaco (ACM), organizador do evento, o menor valor pela temida Promoter Fee entre todos os GPs do Mundial. Nações mais recentes incluídas no calendário pagam nada menos que US$ 35 milhões por edição da corrida. Depois da renovação do contrato, no ano passado, comenta-se que os monegascos depositam US$ 8 milhões na conta da Formula One Management (FOM), dirigida por Ecclestone. Uma pechincha. A Fórmula 1 não pode prescindir de Mônaco. O principado forma com as 500 Milhas de Indianápolis e as 24 Horas de Le Mans a Tríplice Coroa do Automobilismo.

Circular pelo principado em dia de corrida também traz seus contrastes. "Essa sensação de contornar a Saint Devote de carro, logo depois de o Alonso passar no mesmo local, é indescritível", comenta uma estudante espanhola. As ruas estreitas e seculares, um desafio para controlar veículos capazes de se deslocar a mais de 300 km/h, são liberadas para o tráfego tão logo a prova acaba. Há cuidados, aliás, que explicam o porquê de ter havido apenas um acidente fatal em 69 edições do GP, o do italiano Lorenzo Bandini, em 1967, cuja Ferrari pegou fogo após bater na saída do túnel. O AMC contrata mergulhadores profissionais bem equipados e treinados para o caso - pouco provável, mas não impossível - de algum carro lançar-se no mar. "Mantemos um time num barco na saída do túnel e outro na chicane da piscina. Os dois barcos contam com guindaste para podermos virar o carro se ele pousar no fundo, a dez metros de profundidade, com as rodas para cima", diz um dos mergulhadores.

Mas quem se instala em Nice, cidade francesa distante apenas 20 quilômetros, para assistir ao GP de Mônaco - e isso é opção da maioria -, carece de mordomia e cuidado na volta para casa. A procura pelo transporte ferroviário é tanta que os rudes funcionários da estação liberam os passageiros por levas. Quando o trem lota, com milhares de cidadãos, nem todos bem educados como se poderia imaginar, outro lote é "solto" na plataforma. Não é difícil imaginar como parte desses entusiasmados torcedores regressa a Nice. Por 5 (R$ 12) compra-se um bom vinho nos supermercados franceses.

Agora, se a opção pela compra for em Mônaco, o torcedor talvez prefira a sobriedade gastronômica. Tudo é mais caro - quando não, muito mais caro - no principado, em especial nos dias do GP. Uma pizza individual, numa pizzaria-bar simples, próxima à estação de trem, acompanhada de um copo de cerveja, não sai por menos de 40 (cerca de R$ 100). Jantar num dos restaurantes, entre os menos sofisticados implica cautela na escolha do prato para a conta não superar 100 (R$ 250). Bem servido, que fique claro.

Um pouco mais do contraponto da prova mais badalada do ano: apesar da enorme gentileza do pessoal que trabalha na organização da corrida, esqueceram, neste ano, de tirar o pó das cadeiras da sala de imprensa. Também não substituíram a lâmpada de um dos dois únicos reservados privados do minúsculo banheiro, o que exigiu estudos balísticos dos usuários para compreender a trajetória do xixi, pois naquele local era tudo às escuras. E foi assim de quarta-feira a domingo.

Apesar de a vida em geral no principado custar muito, vários pilotos declaram residência em Mônaco. O motivo não é ostentar que se vive na terra dos Grimaldis, ou Grimaldí, como a família é chamada desde que a dinastia ascendeu ao trono, há 700 anos. Os pilotos recebem o salário integral no banco. Afinal, não há imposto de renda para estrangeiros. Eles têm, sim, de manter 100 mil (R$ 250 mil) intocáveis num banco local. O que, diga-se, não representa nenhum sacrifício para piloto algum de Fórmula 1.

"Hoje Mônaco sofre a concorrência da Suíça para abrigar os pilotos, embora os suíços cobrem 10% de tributos", diz um desses profissionais. Para quem tem um contrato anual de 20 milhões, como Michael Schumacher, a opção é viver na Suíça e recolher 2 milhões de impostos. Ou então residir em Mônaco, não pagar nada, mas não poder se deslocar pelas ruas sem ser notado.

Alguns pilotos, aliás, desenvolveram meios de comprovar moradia no principado, embora apareçam por lá apenas nos dias do GP: pagar um funcionário para que entre todos os dias no apartamento alugado, acenda as luzes e ligue o ventilador ou o aquecedor, dependendo da estação. Contas elevadas dessas despesas costumam ser convincentes na hora de provar residência.

Com toda certeza, o milionário empresário Anthony Noghès não imaginou, em 1929, que a corrida de carro que promoveu nas ruas do principado se perpetuaria no tempo. E muito menos ainda que ganharia a dimensão que atingiu. Noghès fez fortuna com a indústria tabagista e provavelmente daria risada, domingo, ao ver tanta publicidade de cigarro espalhada pelas ruas de seu país, numa época em que esse tipo de propaganda equivale quase a expor o mundo à contaminação atômica. Em Mônaco, como tudo é diferente, ela é avalizada.

Diz a lenda que, ainda em 1929, mal os treinos haviam acabado, os pilotos, tendo à frente o monegasco Louis Chiron, foram procurar Noghès para saber de que forma a corrida seria encerrada. Não havia padrão na época. Como naquele momento Noghès estava jogando damas, teria olhado para os pilotos e dito: "Se eu usar uma bandeira com o desenho do tabuleiro, vocês vão entender?" Como a turma concordou, a bandeira quadriculada foi adotada. E também passou a fazer parte da história das competições. Um xadrez de claros e escuros. Exatamente como o GP de Mônaco.

Livio Oricchio cobre o Mundial de Fórmula 1 desde 1991 (desde 1994, para o estado). Domingo, fez seu 21.º GP de Mônaco. Há dois anos reside em Nice, na frança, e regularmente frequenta o principado

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