Quem são os adoradores de Miúcha?

Desta vez, não foi e-mail, mas um telefonema do meu amigo L.S. Fã de Paraíso Tropical, ele não se conformava. "Você viu o diálogo entre os funcionários do Hotel Duvivier sobre o show da Miúcha?", perguntou. Sim, eu vi. "Você não achou esquisito uma jovem de vinte e poucos anos dizer que adora a Miúcha?" Realmente, L.S. tem lá sua razão. No afã de divulgar a próxima atração musical da novela - a primeira foi a sambista Mart''''nália - Gilberto Braga e Ricardo Linhares deram uma forçadinha de mão. Cantora rigorosa, de voz delicada e repertório impecável, Miúcha está a anos-luz do gosto jovem médio. Exceto um ou outro sucesso de trilha de novela, seu nome aparece sempre associado aos de Tom Jobim (com quem gravou dois ótimos discos nos anos 70), Chico Buarque (de quem é irmã) e João Gilberto (com quem foi casada). Mais recentemente, Miúcha tornou-se "a mãe da Bebel", já que a estrela da bossa eletrônica é filha dela e João Gilberto. Não é difícil imaginar uma mocinha jeitosa cantarolando uma ou outra música de Miúcha - mas daí a acreditar que ela "adore" a cantora... Não há problema algum na frase "Eu adoro a Miúcha", mas ela soaria muito melhor na voz docemente grave de Renée de Vielmond e surtiria um efeito positivo, já que o público gosta da elegante Ana Luísa. Ninguém estranharia ouvi-la anunciar a preferência por uma cantora mais refinada que as "Ivetes e Anas Carolinas" das paradas de sucesso. Mas Ana Luísa anda ocupada demais beijocando o namorado ou candidatando-se ao enjoado título de "A Mais Simpática Ex-Mulher do Ano". Pelo andar da carruagem, o Hotel Duvivier vai se tornar uma versão glamourosa do Bar da Dona Jura, aquele das novelas de Glória Perez. Sai o lara-lará dos pagodeiros, entra o dim-dom-dim dos bossa-novistas. É um bom truque para esticar capítulo e divulgar a trilha sonora da novela. Mas convém ser mais criativo nas cenas que antecedem o show. Numa obra de diálogos primorosos, como tem sido Paraíso, qualquer cena boba destoa como um carro alegórico num beco sem saída. Ainda um último tópico da conversa com o amigo L.S.: criticada no começo da novela, Alessandra Negrini está arrasando como a Taís que finge ser Paula. No olhar da vilã, o medo constante de pisar em falso faz a audiência praticamente torcer pela menina má.

Mário Viana, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2007 | 04h18

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