Mariana Ferreira
Mariana Ferreira

Quem tem medo de Wall Street?

O espetáculo da praça vazia nos seis meses do 'Ocupem' mostra que a despolitização e falta de objetivos do movimento impedem seu avanço

Márcia Camargos,

24 Março 2012 | 16h34

NOVA YORK - Organização horizontal, sem líderes eleitos nem autoproclamados. Rostos novos apresentando uma multiplicidade de reivindicações. Uma juventude destituída de perspectivas que, só agora, premida pela crise econômica, dá os primeiros passos na tentativa de interferir nos destinos nacionais. O Occupy Wall Street, que completou seis meses, é o retrato da sociedade americana. Uma sociedade fraturada que, na opinião de muitos, enfrenta uma espécie de colapso nervoso.

Assim, enquanto milhares de pessoas vestidas de verde bebiam e cantavam na maior algazarra para comemorar o dia de St Patrick, padroeiro da Irlanda, centenas de manifestantes voltavam ao Parque Zuccotti, ou Praça da Liberdade, no sul da ilha de Manhattan, para protestar contra a corrupção e os desmandos do mercado financeiro. Sem estratégia definida, e vagamente inspirados na Primavera Árabe, em especial nos protestos da Praça Tahrir, do Cairo, que em 2011 depuseram a longa ditadura de Hosni Mubarack, gritavam palavras de ordem como “Get money out of politics!” (Separe dinheiro e política). Reclamavam que as corporações estão comprando o governo, ditando leis e confiscando diretos individuais. “Há uma grande companhia chamada Monsanto envenenando nossos suprimentos”, afirmou Karen, uma comerciante de 32 anos. “Estão tirando tudo que o ser humano necessita: abrigo, alimento e água potável, cujas fontes vêm sendo envenenadas para a obtenção de gás natural. O preço dos imóveis saiu de controle e famílias inteiras moram na rua sem condições de pagar aluguel. Estamos revoltados.”

A crítica recorrente da falta de propostas e de consistência, das ideias confusas e ingênuas de criar “homens melhores” ou defender o retorno ao campo para produzir seus próprios alimentos saudáveis foi contestada por Jonathan, de 23 anos. Ele afirmou não haver uma, mas várias mensagens que precisam ser ouvidas. “Todas são legítimas”, ponderou. “O sistema é tão complexo que queremos um novo projeto, uma alternativa, mas não temos clareza de como deva ser.” Para o estudante de artes em eterno recesso escolar, o problema não reside na estrutura, mas nos furos que meia dúzia de privilegiados encontram para obter ganhos excepcionais à custa da maioria: “Um por cento dos habitantes da nação mais próspera do planeta apoderou-se da riqueza para corromper os políticos, ao mesmo tempo que o desemprego, a especulação imobiliária, os planos de saúde privados inacessíveis, as dívidas e uma crescente pobreza tomam conta do resto da população”, completou.

Os que não se dizem socialistas nem anticapitalistas, mas batalhadores por um lugar com menos desigualdade, contavam com um valioso laboratório de aprendizado. A poucas quadras de distância, na Pace University, o Left Forum 2012, tido como o maior encontro anual reunindo um amplo espectro de esquerda formado por intelectuais progressistas, ativistas, acadêmicos e variadas organizações civis, oferecia, naquele fim de semana, mais de 400 painéis, workshops e palestras. Abordando uma miríade de temas que iam de Rosa de Luxemburgo ao racismo, da China a Cuba, passando pela América Latina e o Oriente Médio, trazia conferencistas do mundo inteiro e, em horário nobre, o cineasta Michael Moore, que fez uma aparição relâmpago no parque, um dos 503 espaços público-privados de Nova York. Ali, foi cercado por grupos que se queixavam do tratamento agressivo da polícia e das detenções arbitrárias. Entre os que foram à praça paramentados como se estivessem num desfile de carnaval ou pocket show, não faltava quem culpasse o prefeito Michael Bloomberg pela opressão do Estado corporificada no impressionante número de viaturas e guardas armados com cassetetes, revólveres e um punhado de sugestivas algemas plásticas penduras na cintura. Cerca de 300 policiais uniformizados, e outros à paisana infiltrados na multidão, vigiavam o mesmo contingente de manifestantes. Desproporcional, e incluindo até agentes da unidade antiterrorista, esse aparato ostensivo deslocado para coibir eventuais excessos deixava, segundo comentários dos presentes, um recado assustador: “Vocês podem brincar de democracia, afinal de contas vendemos a bandeira de um país livre, comprometido com a liberdade de expressão, mas experimentem sair da linha e cruzar certas fronteiras e não hesitaremos em usar toda a violência e a força bruta para manter a ordem e garantir o status quo”.

No domingo, 18, deserta e cercada por grades removíveis, a praça era, num gesto revestido de simbologia, meticulosamente esfregada em cada centímetro quadrado por uma equipe de limpeza que agia como se quisesse desinfetá-la dos micróbios da revolução. Nem precisava chegar a tanto. Que descansem os donos de Wall Street. O espetáculo do aniversário de seis meses mostra que a despolitização e falta de objetivos do movimento impedem seu avanço. Ele ilustra como a sociedade americana conseguiu criar uma geração que ainda patina sem garra nem espinha dorsal para desafiar o establishment.

MARCIA CAMARGOS É JORNALISTA COM DOUTORADO EM HISTÓRIA E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O IRÃ SOB O CHADOR, COM ADRIANA CARRANCA

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