'Quer me baixar? Me baixa com dignidade'

Tulipa Ruiz nem tinha lançado seu segundo disco, Tudo Tanto, quando tocou em Brasília. No meio do show, ela não entendeu quando os fãs começaram a pedir: "É! É! É". "O que essa galera está gritando?", pensou.

O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2012 | 03h08

A ficha caiu em seguida: "É" é uma música de seu disco novo, que a própria cantora havia liberado para download. Ela não imaginou que, com apenas uma semana, tanta gente teria gostado a ponto de pedir a música em um show. "Tinha me esquecido de como a internet é poderosa", ri, às vésperas de atravessar o mundo para apresentar-se no Japão.

Tulipa trabalhava em uma empresa de comunicação e participava esporadicamente dos shows do pai e do irmão, mas não havia se assumido como cantora até 2007. Incentivada pelo amigo e também cantor Thiago Pethit, ela criou um perfil no MySpace - e tudo mudou. "Me assumi como cantora quando dei o 'ok' para publicar o perfil", conta. Ela colocou as músicas que havia gravado com o irmão (Gustavo Ruiz, que toca guitarra em sua banda e é produtor de seus discos) e, a partir de então, começaram a aparecer os convites - e os contatos. "No MySpace começou um intercâmbio grande entre músicos e bandas", lembra.

Tulipa começou a tocar em São Paulo e um ano depois já não conseguia conciliar o jornalismo e as artes (ela também é artista plástica). Passou todo o ano de 2009 compondo e fazendo shows, até que gravar o primeiro disco mostrou-se inevitável.

Efêmera saiu em 2010. No dia do lançamento, um amigo a avisou pelo Facebook: "Vazou na internet". "Aquilo me desesperou. Não por estar na internet, mas porque tinham ripado o disco em uma resolução tosca", reclama. "Pô, você fica não sei quanto tempo no estúdio, escolhe o microfone, tem o maior cuidado com o som para a pessoa baixar em baixa resolução."

Auge e decadência. Ela passou aquela madrugada colocando uma versão melhor do próprio disco à disposição de seus fãs. As pessoas começaram a replicar e a cópia ruim foi substituída aos poucos. "O meu desespero era que as pessoas não podiam ouvir meu disco em baixa qualidade. Quer me baixar? Me baixa com dignidade", diz, rindo da própria campanha. "Vivemos uma época muito louca", filosofa a cantora. "Temos TV e som de alta resolução, caixas potentes. E assistimos a vídeos no YouTube e escutamos MP3 tosco. Estamos no auge da técnica e na decadência da resolução."

Ela acha que o artista tem de se preocupar com todos os tipos de público - há aqueles que consomem música apenas na web e outros que preferem comprar o disco em lojas. Ao lançar Tudo Tanto, vários fãs reclamaram no Facebook dizendo que "não baixavam música" e queriam comprar o disco. "Temos que pensar em todo mundo. Se não permitir o download, estou restringindo e dificultando o acesso ao meu trabalho. Acho que isso é um pensamento de 2012", diz.

Contudo, deixar um disco para download não é uma prática automática para os artistas. Tulipa conta que procurava o novo disco da Fiona Apple para ouvir na web - ela queria mesmo era comprar o disco, porque ela é daquelas que gostam do encarte.

Mas, na pressa, apelou para a internet. "Que trampo!", lembra. Ela foi no iTunes e encontrou apenas um preview de 30 segundos da música. Ficou indignada. "Eu estava ali, de coração aberto, com todo o interesse e vontade de prestigiar o artista, e foi o maior trabalho. Fiquei chateada. E achei o preview uma falta de respeito", opina. "Acho que a gente tem que pensar diferente. Antes do disco físico eu tinha as minhas músicas no mundo virtual. Elas nasceram ali", diz.

Início de relação. "Quando procuro um artista para baixar, e eu baixo, e é como um começo de relação. Posso dar play de novo ou não. Posso dar play uma ou 40 mil vezes. Posso postar um vídeo, ir ao show. O download é o começo da relação entre artista e público", diz.

Ela não crê que o CD vá morrer - ainda. Ex-vendedora de loja de discos, ela vê esse tipo de comércio fechar as portas aos poucos. "O CD descasca. Ninguém tem mais o primeiro CD que comprou. Mas eu ainda tenho o meu primeiro vinil - e os do meu pai e os do meu avô. Fico entre o digital e o vinil", diz.

Tulipa também não descarta o modelo de negócio das gravadoras - desde que a deixem pôr o disco para download. Ela registrou suas músicas no Ecad e recebe por elas, mas não tem controle sobre isso. "Não tem nada que fiscalize o Ecad. E acho que a arrecadação por amostragem (quem toca mais ganha mais) não é democrática, não incentiva o artista", critica.

Efêmera foi sucesso de público e crítica. Tulipa ganhou prêmios e tocou no exterior. E diz que imediatamente após o lançamento do primeiro disco, começaram os questionamentos sobre o próximo trabalho. "Acho isso engraçado", diz.

Mas a sua tranquilidade em relação aos críticos é exceção. "Ainda há um determinado número de pessoas responsável por dar nota de 0 a 10", diz - uma relação que ela considera injusta. "Há uma pressão. Você pode prestar atenção e pirar."

Mas a internet, de novo ela, está mudando isso. A importância da crítica especializada está se diluindo com a possibilidade de as pessoas publicarem opiniões em redes sociais. "Todo mundo pode dar opinião. Isso é mais democrático e eu acho mais interessante", conclui.

Tatiana de Mello Dias

tatiana.dias@grupoestado.com.br

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