Queria decifrar e aprisionar o tempo

Artigo

CARLOS GRANÉS, ENSAÍSTA COLOMBIANO, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2012 | 03h06

Morreu um dos imortais. Carlos Fuentes pertenceu a uma geração de monstros literários que parecia condenada a ser eterna. Trabalhou até o último dia de sua vida, e até o último dia manteve-se atento aos acontecimentos da política mundial. Fuentes alcançou em vida algo que poucos autores alcançaram. Mais importante que os prêmios ganhos, teve o raro privilégio de se converter ainda em vida em clássico da literatura latino-americana, numa referência inevitável a ser lida por todo jovem aspirante a autor em língua espanhola, ou por quem quisesse ter ideia do que foi a literatura latino-americana do século 20.

Afinal, Fuentes não escreveu só grandes romances, ajudou a forjar o fenômeno cultural mais importante da América Latina no século 20: o boom latino-americano. Com Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, José Donoso e Guillermo Cabrera Infante, reinventou primeiro a literatura do continente e, depois, o próprio continente, recriando-o por sua imaginação e habilidade literária.

Vale destacar nele o fascínio pelos mitos e passado pré-colombiano do México. Nos seus romances está latente o passado arcaico do México e os conflitos surgidos - e não solucionados até o fim - com a chegada dos espanhóis e o ingresso da AL no Ocidente. Também se deixava absorver pelo desejo de desvendar o efeito sedutor do poder sobre a alma humana, e como essa inclinação produziu cataclismos políticos, sociais e familiares no seu México natal.

Fuentes foi um romancista puro-sangue, mas seria injusto dizer que ele foi apenas isso. Combinou até o último dia de vida a atividade literária e um compromisso com a realidade política e social da AL e do mundo. Como o imortal, parecia saber tudo e estar em todos os lugares. Seu projeto literário era de ambição suprema. Queria decifrar e quase aprisionar o tempo, e seu exemplo era a Comédia Humana de Balzac. Por isso sua morte perturba: esse desafio que só poderia ser assumido por um imortal.

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