Quero tomate que tenha o direto de apodrecer

Por que haveríamos de querer um tomate Highlander, com o dom da vida "eterna", que fosse tão firme a ponto de não apodrecer facilmente, de durar semanas? Pois esse isopor travestido de tomate, híbrido com genes "melhorados" para retardar a maturação, se disseminou feito erva daninha e ocupa 75% do mercado.

Janaina Fidalgo, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2010 | 01h12

O mais conhecido atende pelo nefasto nome de carmen, disfarce para o termo "longa-vida". Quando o vir, faça o sinal da cruz e fuja, porque ele quase não guarda traços do que um dia já foi.

É incapaz de se desfazer quando submetido a temperatura. E, pior, é insípido. Não há flor de sal ou azeite capaz de tirá-lo do limbo dos tomates-sem-gosto. O professor Paulo César Tavares de Melo explica que os mesmos genes que o fazem ser longa-vida interferem negativamente no sabor e no aroma.

Quero tomates colhidos maduros, com polpa carnuda e macia, no mais perfeito estágio de maturação, com doçura e certa acidez. Que tenham o direito de durar três, quatro dias, quando muito, porque provavelmente vão ser comidos antes. Que apodreçam e morram no tempo deles, não no tempo determinado pela indústria, que diz "melhorar" as sementes, para que o fruto resista aos sacolejos entre o campo e a mesa. Se há um interesse atendido nessa história, não é o nosso, de consumidor, e sim o de quem quer tomates íntegros nas gôndolas dos hipermercados pelo máximo tempo possível. Os compradores? Que comam tomates de isopor.

Mas quem pode comprá-lo fresco uma vez por semana, não tem porque consumir um que resiste feito plástico. O melhor é a gente se adaptar ao tempo do fruto, não ele ao nosso. Tomate longa-vida? Vade retrum, Highlander!

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