Quiabo: safra farta com bom preço

O município paulista de Piacatu colhe o dobro do que colheu no ano anterior. Comercialização, feita em parceria, garante lucro

Chico Siqueira, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2008 | 03h06

Responsável por 56% da produção paulista, Piacatu festeja um recorde histórico na colheita de quiabo. E, mesmo com o excesso de produção, um competente programa de comercialização garante lucro aos produtores. Nesta safra, que termina em junho, devem ser colhidas 248 mil caixas de 18 quilos, ou 106% a mais do que na safra anterior, quando foram colhidas 120 mil caixas.Mas o que surpreendeu foi que, ao contrário de anos anteriores, quando a caixa chegou a cair até R$ 1 na safra e os produtores tinham colheita somente para no máximo seis meses, na safra atual o preço chegou a R$ 45, está a R$ 30 e a colheita vai durar 12 meses."Em quase 20 anos de plantio, a produtividade nunca chegou a isso", diz o agrônomo Valdeir José dos Santos, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) de Piacatu. O sucesso deve-se a vários fatores, mas a adubação correta com fósforo, o uso de irrigação e as condições climáticas foram essenciais. A produtividade dobrou de 600 para 1.200 caixas por hectare.GERENCIAMENTOOutro fator de rentabilidade foi o modelo de gerenciamento e arrendamento, feito em parceria, por intermédio da Associação dos Produtores Rurais de Piacatu. O sistema começa com o acompanhamento, pelos produtores, desde o preparo da terra, plantio e colheita, até a classificação do quiabo, transporte e entrega do produto para 40 empresas compradoras na Ceagesp, em São Paulo. Lá, já funciona um programa inédito de comercialização que garante preços melhores.O sistema de gerenciamento é controlado pela associação, mas a família Vendrame, de seis irmãos, primeiros plantadores de quiabo do município, é quem faz as operações empresariais. A família arrenda as áreas e as distribui para meeiros, a maioria formada por ex-sitiantes, lavradores e diaristas que estariam na colheita da cana, não fosse o quiabo. Essa parceria faz com que seja tocada, em conjunto, uma área maior e contínua de quiabo. Na safra atual, são 60 hectares, divididos em 55 lotes, cada um tocado por uma família. Os meeiros arcam com a mão-de-obra do cultivo, colhem, classificam e colocam o quiabo nas caixas e ainda arcam com 50% das despesas da irrigação.Os Vendrame pagam o arrendamento, preparam a terra, arcam com 50% da irrigação e dos insumos e ficam encarregados do transporte e da venda. Depois de vendido o quiabo, o lucro líquido é dividido meio a meio. "São descontados frete, descarga e uma comissão de 18%, que é o lucro da empresa compradora sediada na Ceagesp. O resto é dividido em 50% para o arrendatário e 50% para o meeiro", diz Lucas Vendrame. Assim, na venda da caixa por R$ 30, o desconto é de R$ 10. "Dos R$ 20 restantes, R$ 10 ficam para nós e R$ 10 para o meeiro."LEILÃONa venda não há atravessador. "Fazemos um leilão. Quem dá mais, leva", diz Lucas Vendrame. "Fazemos também um acompanhamento do preço no comércio na Ceagesp e dos compradores", conta Lucas Vendrame. "Se a empresa quiser pagar muito pouco em relação ao preço de venda, fica sem o produto." Segundo José Vendrame, dificilmente trabalhadores diaristas conseguiriam fazer a colheita sem evitar desperdício e no tempo exato como fazem hoje as parcerias familiares. Além disso, diaristas não teriam a preocupação em tosar a haste para fazer o pé dar mais frutos. "Fazemos um corte no pé da haste maior e outras hastes nascem. Podem rebrotar até dez ou mais hastes, que darão mais frutos", explica o agrônomo Santos.A produtividade e os preços deixam os meeiros animados. Como Daniel Ferraz, que, nesta safra, terminará a casa que começou a construir há alguns anos. Ele faz as contas e diz que deve receber R$ 800 por mês nesta safra, R$ 250 a mais que no ano passado. O casal Francisco Aparecido e Maria Helena Siqueira deixou o plantio de outras culturas há 12 anos. "Sempre fomos arrendatários e por isso optamos pelo quiabo", diz Siqueira. O casal deve ganhar, cada um, R$ 800 por mês na safra atual. "Ou fazemos isso ou temos de trabalhar na cana para sustentar a família", diz o casal, pais de três filhas, de 18, 24 e 26 anos.

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