Químico rejeitado há 29 anos leva Nobel

Daniel Shechtman, que descobriu uma nova classe de material sólido em 1982, enfrentou a descrença de colegas e até perdeu o emprego

ESTOCOLMO, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2011 | 03h03

Um cientista israelense que foi ridicularizado por anos e até perdeu um emprego por dizer que havia descoberto uma classe totalmente nova de materiais sólidos recebeu ontem o Prêmio Nobel de Química.

Daniel Shechtman, de 70 anos, descobriu os quase-cristais em 1982, quando trabalhava nos Estados Unidos. O pesquisador observava uma liga metálica em um microscópio eletrônico quando notou um padrão desconhecido no nível molecular. Tratava-se de quase-cristais, um material antiaderente, resistente ao calor e que não enferruja, hoje presente em produtos que vão de frigideiras a monitores com telas de cristal líquido.

"As pessoas simplesmente riram de mim", lembrou Shechtman. Ele recorda que um gigante da química, Linus Pauling, duas vezes vencedor do Nobel, afirmou que não havia "quase-cristais, apenas 'quase-cientistas'". "Eu me senti rejeitado", disse o agora premiado químico ao se lembrar de quando foi demitido de seu grupo de pesquisa, com a justificativa de que suas declarações "desgraçavam" a equipe,

"Sua descoberta foi extremamente controversa", afirmou o Comitê da Real Academia Sueca de Ciências, que ontem lhe deu o prêmio de R$ 2,68 milhões. O que Shechtman viu contrariava as "leis da natureza" nas quais os químicos acreditavam. Para eles, em toda matéria sólida os átomos estavam "embalados" dentro de cristais em padrões simétricos que se repetiam periodicamente. Mas o pesquisador viu padrões que não se repetiam.

"Mosaicos aperiódicos, como os medievais islâmicos do palácio de Alhambra, na Espanha, ajudaram os pesquisadores a entender como os quase-cristais se parecem no nível atômico", disse a Academia durante o anuncio. "Nesses mosaicos, como nos quase-cristais, os padrões são regulares - seguem regras matemáticas -, mas nunca se repetem."

Antes do achado, os cientistas afirmavam que a matéria sólida se apresentava somente em dois estados: cristalino - como os diamantes, no qual os átomos são arranjados em fileiras rígidas - e amorfo - como os metais, com os átomos sem uma ordem específica. A matéria quase-cristalina ofereceu uma terceira possibilidade e abriu uma porta para que a indústria usasse novos tipos de materiais.

Esses materiais são muito duros e não conduzem bem calor ou eletricidade. Segundo Astrid Graslund, secretária do Comitê do Nobel de Química, suas aplicações práticas ainda são limitadas, "mas o material possui propriedades inesperadas". Porém ela reforça que a importância da descoberta de Shechtman é "conceitual". "Precisamos reescrever tudo o que sabemos sobre cristais. É uma mudança de paradigma, e isso é o que considero mais importante."

Ontem, Shechtman se disse "animado", mas enfrentava dificuldades para elogiar seus colegas, muitos dos quais um dia duvidaram de sua descoberta.

Nas últimas décadas, poucos cientistas tiveram de enfrentar uma incredulidade tão forte quanto o israelense. "Ele lidou com o ceticismo de uma maneira muito científica e cavalheiresca e respondeu a seus críticos como um cientista deve fazê-lo: por meio da ciência", disse Ron Lifshitz, professor de Física da Universidade de Tel Aviv. / AP e REUTERS

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