Quincas, o Belo

Com quase 1m90 de altura, vastos bigodes terminados em arabescos, olhos claros e uma oratória imbatível mesmo em tempos de culto à oratória, Nabuco ganhou o apelido de "Quincas, o Belo". Para a autora do perfil Joaquim Nabuco (2007), Angela Alonso, um dos raros livros biográficos desde o clássico escrito pela filha do abolicionista, Carolina, esse porte aristocrático determinou a posição eminente dele na campanha iniciada em 1880. Mas, como se vê nos diários e nas cartas recentemente trazidos à luz, Nabuco trabalhou duro pela causa, inclusive em países como Inglaterra, França e EUA, e entendeu como poucos a importância de não atrelá-la a agendas políticas.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

26 Dezembro 2009 | 00h00

Monarquista, ele sabia que a demora em decretar a abolição estava custando a credibilidade do regime de D. Pedro II. Mas deixou de lado a conjuntura para lutar por aquilo que julgava acima de paixões partidárias: a primeira e a última razão para liquidar a escravidão era a "dignidade humana". Formado em Direito em São Paulo e no Recife, fluente em inglês e francês, jovem poeta e crítico que comprou briga até com o consagrado José de Alencar, Nabuco decidiu aos 30 anos que se concentraria na luta pela abolição em prejuízo de qualquer outra carreira, principalmente a política. Mesmo sem dinheiro, que vinha de outro líder do movimento, André Rebouças, Nabuco fez o possível para divulgar suas ideias e transformá-las em lei.

Vitorioso, partiu para outro campo em que se destacou com igual brilho: a literatura. Com sua prosa ao mesmo tempo maviosa e contundente, nostálgica e idealista, escreveu livros como Um Estadista do Império, sobre a carreira de seu pai, o senador Thomaz Nabuco de Araújo, e outros funcionários públicos de alto escalão e padrão que se destacaram no Legislativo e Executivo; e Minha Formação, suas memórias, que misturam reminiscências da infância com viagens de esteta e a campanha da abolição. Faria ainda diversos livros de ensaio político, como Balmaceda, sobre o Chile, e os Pensamentos Soltos, com aforismos em que mostra seu apego à religião católica.

No último decênio de vida, voltou à esfera pública ao se tornar embaixador do Brasil em Washington, onde fez um trabalho - considerado pioneiro por intelectuais do Itamaraty como Rubens Ricúpero - de aproximação entre Brasil e EUA. Foi, enfim, essa raríssima figura de homem público que ficou acima de rótulos ideológicos e escreveu prosa de primeira grandeza.

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