R$ 1,2 bi e 36 ações em 12 anos: e não se vê a cracolândia virar Nova Luz

Governos seguem apostando no sucesso a longo prazo de projetos pontuais; experts cobram trabalho integrado

Bruno Paes Manso e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

20 Dezembro 2009 | 00h00

Como se aplicassem pequenas agulhas de acupuntura em um corpo debilitado, a Prefeitura e o governo do Estado lutam contra a degradação do centro paulistano com ações pontuais, espalhadas, esparsas e, pelo menos até agora, controversas. Na sexta-feira, foi lançada mais uma dessas operações - a licitação da Nova Luz, que pretende redesenhar uma área de 23 quadras e, assim, espalhar os benefícios pelo restante da região central. Será a 36ª intervenção em pontos culturais e turísticos no centro da cidade desde 1998. E mesmo assim, depois de tantas agulhadas e com um investimento público total de R$ 1,2 bilhão até 2010, ainda existe um abismo entre o centro sonhado e o centro real visto em uma noite qualquer.

Nesses quase 12 anos de projetos para o centro, São Paulo já gastou nos 26 quilômetros quadrados da região o equivalente a 13 quilômetros do Metrô ou 60 Centros Educacionais Unificados (CEUs). Ainda assim, nessa área, Sala São Paulo, Pinacoteca, Parque da Luz e Mercado Municipal funcionam como ilhas isoladas no centro da cidade, pequenos bunkers rodeados por ruas escuras e sujas, prédios degradados, comércios decadentes e consumidores de crack.

Para os governos municipal e estadual, o caminho está correto e a intenção é continuar apostando em diversas ações localizadas (como, por exemplo, a construção de um teatro de dança por um arquiteto estrangeiro renomado, a reforma da Biblioteca Mário de Andrade, a revitalização do Parque Dom Pedro II ou mesmo a Nova Luz), para servir de acupuntura - a intenção é que as boas ações se espalhem pelos quarteirões em volta. Especialistas, no entanto, apontam que grande parte das obras do passado falhou por não estar incluída em um plano mais coordenado e integrado. A acupuntura foi feita, mas sem antes ter sido feito um check-up completo.

"O centro é um conjunto de partes que não formam um todo. Falta uma visão de conjunto capaz de costurar os investimentos e criar um conceito capaz de fazer a região renascer", afirma o arquiteto Roberto Loeb, autor de projetos como o Centro de Cultura Judaica. A ideia de irradiar desenvolvimento por meio de investimentos pontuais teve início em 1998, durante o governo Mário Covas (PSDB), com a restauração da Pinacoteca, feita pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha. No ano seguinte, entrou em funcionamento a Sala São Paulo. Apesar do sucesso que tiveram na agenda cultural da cidade, as duas apostas não causaram o impacto urbanístico esperado na vizinhança.

Na gestão municipal de Marta Suplicy (PT), em 2004, a revitalização do centro ganhou outro rumo a partir do financiamento de US$ 100 milhões pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para uma série de projetos que se espalhavam por diversos pontos, como a região do Parque Dom Pedro II e do Mercado Municipal, apostando no incentivo à moradia popular na região.

Durante as administrações de José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM), os rumos voltaram a mudar. O princípio da acupuntura ganharia uma nova escala. A ideia era criar um grande projeto urbano para mudar o perfil de 218 mil m² da região da Nova Luz e atrair o interesse da população para o local. Os cinco consórcios que concorrem na criação do projeto foram conhecidos na sexta-feira. No fim do ano que vem, caso tudo corra dentro do esperado, a proposta ganhadora será licitada para que a iniciativa privada inicie os investimentos na região. "Para obter sucesso é fundamental que haja um projeto que seja também do interesse do mercado, já que são os empresários que terão de investir na execução das obras. Se isso ocorrer, creio que as áreas vizinhas também serão contempladas", afirma o arquiteto e urbanista Cândido Malta.

COORDENAÇÃO

Somente em desapropriação de terrenos, o mercado imobiliário estima que seja necessário investir pelo menos R$ 200 milhões. "Mesmo com um bom projeto, a expectativa do mercado imobiliário não é ganhar dinheiro com os investimentos da Nova Luz, mas com o retorno que pode vir a partir do desenvolvimento e do interesse nas regiões vizinhas", completa o empresário Cláudio Bernardes, vice-presidente do Sindicato da Habitação (Secovi).

O secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem, afirma que a coordenação e a costura das obras no centro vêm sendo feitas pela pasta. "Existem investimentos âncoras e eles são importantes para estimular o desenvolvimento do entorno", diz Bucalem. "Mas o projeto do centro é mais amplo e não se restringe à Nova Luz. Basta ver todos os investimentos espalhados pela área da Subprefeitura da Sé."

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