Raiva une 2ª geração de Black Blocs de São Paulo

Grupo heterogêneo reúne de professor a ex-presidiário que aprenderam primeiras lições com Passe Livre, em junho, em defesa da destruição

Bruno Paes Manso, de O Estado de S. Paulo,

13 Outubro 2013 | 08h33

Eles já somam cerca de 70 pessoas que começaram a participar das passeatas principalmente depois do dia 26 de julho, quando 13 agências de banco foram destruídas em São Paulo. Esse dia ficou marcado como a primeira manifestação convocada pelos adeptos da tática Black Bloc, grupo que prega a destruição de bancos, lojas, lanchonetes como forma de se manifestar politicamente.

 

Eles têm entre 15 e 25 anos, são de classe média baixa, estudaram em geral em escolas públicas e universidades privadas. Formam, no entanto, uma massa heterogênea, integrada por professores, analistas de sistema, ecologistas, ex-presidiários e internos da Fundação Casa. A maioria conheceu os protestos somente depois que o Movimento Passe Livre (MPL) foi para as ruas, nas manifestações de junho, que acompanharam como coadjuvantes.

 

"As ações do MPL foram uma aula. Eu já sentia muita raiva, mas só depois de junho eu aprendi o que era ação direta, como a violência pode provocar mudanças no sistema. Esse tipo de protesto é o resultado do ódio que eu sinto contra o sistema. O objetivo é destruir para construir", disse um dos adeptos da tática.

 

Para compreender as motivações desses encapuzados, o Estado conversou com cinco black blocs - duas mulheres e três homens. Também teve acesso às impressões e à parte dos diálogos que a professora Esther Solano, do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e o professor Rafael Alcadipani, da Fundação Getúlio Vargas, vêm travando com esses jovens.

 

Nos últimos dois meses, eles conversaram com cerca de 20 ativistas, que conheceram nas manifestações. "Nosso objetivo é compreender o papel da violência nos protestos. Ela faz parte das ações policiais e dos manifestantes. Isso diz algo a respeito de São Paulo e do Brasil", diz Esther, de 30 anos, que é espanhola. "Não adianta simplesmente fingir que o fenômeno não existe. Pode mostrar algo que ainda não sabemos"

 

A estratégia de ação dessa nova fase black bloc mudou. Na época do MPL, a depredação ocorria só depois que a Polícia Militar tentava dissipar os protestos ou desbloquear as vias. Os integrantes agiam em nome da redução da tarifa. "A tática da reação é inspirada nos manifestante europeus. Depois de julho, quando os black blocs começaram a convocar os protestos, passou a se adotar o estilo americano, criado em Seattle, que ataca mesmo antes de ser provocado. A depredação não tem objetivo claro. Mostra a indignação e a raiva."

 

Grito. A agressividade teve inspiração nos black blocs do Rio. É dos mascarados fluminenses a ideia do grito que antecede os rituais de quebra-quebra, similar aos macacos ou homens da caverna: uh-uh-uh. Nas manifestações paulistas do MPL, em junho, na primeira fase dos protestos, o som característico eram os gritos políticos e o som do bumbo da Fanfarra do Mal.

 

Desde 7 de setembro, quando a tática black bloc foi reproduzida em diversos Estados brasileiros e 200 pessoas foram detidas, a repressão se intensificou. Boa parte deles já foi detida. Muitos estão recebendo intimações para comparecer a delegacias. "O cuidado foi triplicado. Tiramos perfis do Facebook, aprendemos programas para embaralhar mensagens", diz.

 

Na semana passada, o excesso da tática black bloc voltou a repercutir na imprensa quando jovens mascarados lançaram bombas, frascos de coquetel molotov e bolas de ferro contra os policiais. Numa das cenas mais simbólicas da manifestação, black blocs viraram um carro da Polícia Civil. "Foi lindo. Foi um troféu", disse um deles. "Somos contra a violência contra pessoas. Mas, no caso da polícia, eles representam o Estado que age contra nós de forma violenta", explica um integrante.

 

Depois da confusão, na terça-feira, o governo de São Paulo anunciou uma força-tarefa para enfrentar os adeptos da tática. Quem for pego depredando patrimônio nas manifestações será enquadrado por associação criminosa. "Isso não vai diminuir as ações. Novos protestos vão ocorrer. O nosso foco é a Copa do Mundo e a Olimpíada", diz uma black bloc.

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