RALLY-Sojicultores do RS contabilizam maiores gastos com inseticidas

Os produtores do Rio Grande do Sul projetam que o custo ao final da atual safra de soja será maior que o esperado, principalmente por uma surpreendente infestação de lagartas.

GUSTAVO BONATO, Reuters

07 de março de 2013 | 12h59

Técnicos do Rally da Safra, uma expedição que percorre as principais regiões produtoras do país, verificaram uma presença maior dos insetos, que prejudicam o desenvolvimento das plantas e, em casos mais graves, podem afetar drasticamente a produtividade das lavouras.

"Deu para ver uma maior incidência de buva (espécie de planta daninha), de lagarta falsa medideira e largarta da maçã, que não tínhamos visto ainda", disse o analista Marcos Rubin, da Agroconsult, responsável pelas análises, após percorrer um trecho entre o sul de Santa Catarina e a cidade gaúcha de Passo Fundo, importante polo da sojicultura brasileira.

Quando saíam das lavouras, ainda em fase final de desenvolvimento, os técnicos da expedição acompanhada pela Reuters no Sul muitas vezes encontravam lagartas presas ao tecido da calça, numa confirmação da grande presença dos insetos em meio às plantas.

À beira de uma de suas lavouras, o agricultor Luis Carlos Baseggio contou aos técnicos que foi surpreendido pelos insetos neste ano.

"Nunca deu (apareceu) essa lagarta. Ninguém sabe manejar ela", disse ele, referindo-se à lagarta da maçã do algodão, comum nesse tipo de cultura e mais frequente no Centro-Oeste, mas que agora começa a surgir também no Sul do país.

Os especialistas integrantes do Rally e os produtores locais consultados disseram desconhecer as causas da alta infestação, mas sabe-se que períodos secos como os registrados em janeiro favorecem a proliferação da lagarta.

A problema com as lagartas foi destaque nas conversas entre produtores, num encontro organizado pelo Rally da Safra em Passo Fundo, na noite de quarta-feira.

Sérgio Webber, que planta 1.150 hectares com a oleaginosa, estimou ter gasto mais de 70 reais por hectare além do planejado com aplicações de diferentes inseticidas, na tentativa de controlar as lagartas.

"Nós tivemos que fazer três aplicações no início. Normalmente faria uma só. Conseguimos controlar, mas não foi fácil", disse ele, reclamando da lagarta da maçã.

2013/14

A consultoria Agroconsult estima que os custos operacionais das lavouras gaúchas na atual safra tenha ficado em 1.257 reais por hectare, sem levar em conta arrendamento e depreciação. Para a temporada 2013/14 o custo deve subir para 1.311 reais.

"Uma ou duas aplicações novas (de inseticida) têm que ser colocadas no orçamento para o ano que vem", disse o diretor da consultoria, André Pessôa, em apresentação aos produtores rurais. "A pressão de lagarta este ano no Brasil é gigantesca. Ela está tomando o Oeste da Bahia, várias regiões do Brasil, inclusive aqui no Rio Grande do Sul."

O agricultor Altemir Luiz Ceolin está acostumado a gastar mais com fungicidas do que com inseticidas. Mas, na safra atual, essa relação se igualou. Ele conta que desembolsou o equivalente ao preço de 1,5 saca de soja com produtos para combater as lagartas, enquanto em anos anteriores esse custo equivalia a pouco mais de meia saca de soja.

"Nós tivemos ataques de lagartas que não são comuns para nós. Aí foi um desespero, porque as doses que usávamos para outras lagartas não eram mais suficientes", disse ele à Reuters.

PRODUTIVIDADE

Apesar do custo elevado, o problema das lagartas foi bem controlado e não afetou de maneira significativa a produtividade das lavouras gaúchas, segundo a avaliação dos técnicos e dos próprios agricultores.

A colheita ainda está em fase inicial no Estado e deve ganhar ritmo a partir de meados deste mês. Será a hora de contabilizar as perdas com um outro fenômeno, que teve maior impacto na produção gaúcha: um período de quase um mês de seca ao longo de janeiro.

"Teve um susto grande no mês de janeiro. A soja mais precoce e a mais tardia ficaram 26 dias sem chuvas. Essa primeira que foi colhida foi a que mais sofreu, porque estava bem na fase de enchimento de grão (durante a seca)", disse o produtor Lisandro Webber, da região de Passo Fundo. "Mas em 70 por cento da lavoura houve desenvolvimento normal", completou.

Ele espera uma produtividade média de 60 sacas por hectare este ano em suas terras, recuperando-se de uma média de 49 sacas por hectare em 2012, quando uma estiagem bem mais ampla derrubou a produção em todo o Sul do país.

O produtor Ceolin afirmou que ainda há motivos para comemorar este ano: "A estimativa de quebra é a redor de quebra de 10 por cento, mas acima de uma expectativa de produtividade bem elevada. Vai ser superior à última safra boa, dois anos atrás."

"O Rio Grande do Sul está muito 'manchado', com muitas variações (de produtividade) de uma região para outra. Na média vai muito bem, principalmente na comparação com a safra passada", disse Pessôa, da Agroconsult.

Nesta quinta-feira a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou a safra brasileira de soja em um recorde de 82,1 milhões de toneladas. A colheita no Rio Grande do Sul é projetada em 12,2 milhões de toneladas, recuperação de 87 por cento ante a temporada anterior.

A Conab manteve a previsão de safra gaúcha na comparação com o levantamento de fevereiro.

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