Raridades do Instituto de Biociências da USP

Raridades do Instituto de Biociências da USP

Projeto exigiu 14 anos de trabalho para recuperar 2.440 livros; obras de valor histórico e artístico revelam ciência dos séculos 18 e 19

Alexandre Gonçalves, O Estadao de S.Paulo

04 de abril de 2010 | 00h00

Há 16 anos, a bibliotecária Nelsita Trimer iniciou a organização dos livros raros do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). Décadas de traças, carunchos e fungos ameaçavam relatos de pesquisas, belas gravuras e registros únicos de animais e plantas, alguns deles já extintos. Libertados da poeira, cerca de 2.440 títulos podem agora ser consultados por cientistas e visitantes na sala de obras raras do instituto.

"O acervo não é grande, mas contém as obras essenciais", disse Gerhard Jarms, biólogo alemão do Museu de Zoologia de Hamburgo, depois de observar com admiração as lombadas nas estantes.

Como a maioria das obras pertence aos séculos 18 e 19, folhear os livros equivale a uma viagem pelos debates científicos que movimentaram o período. Pode-se começar, por exemplo, com Erasmus Darwin, avô do famoso naturalista inglês. A biblioteca conta com uma edição da sua Zoonomia, escrita em elegantes caracteres góticos. O livro já propunha que "um único filamento vivo" teria gerado os animais.

A teoria ganhou coerência e força com o neto Charles Darwin, que está representado no acervo por quase 30 títulos, em vários idiomas. Há trabalhos sobre orquídeas, plantas carnívoras e recifes de coral. Naturalmente, não faltam A Origem das Espécies e A Origem do Homem, livros que marcam o nascimento do evolucionismo.

Alfred Russel Wallace, outro pai da teoria da seleção natural, também tem dois livros nas estantes de obras raras do IB. Um deles, A Distribuição Geográfica dos Animais, conta com belas pranchas da fauna sul-americana, fruto da sua aventura juvenil na Amazônia, quando reuniu espécies para colecionadores. A teoria proposta no livro continua válida: o isolamento geográfico é essencial para que as espécies evoluam e se diferenciem.

Mas o acervo é pluralista e conta com inimigos ferrenhos do darwinismo. O suíço Louis Agassiz, por exemplo, está representado pela obra Sobre Espécies e Classificação em Zoologia, em que expõe seus argumentos fixistas, hostis à hipótese de mudanças evolutivas nos seres vivos. Agassiz coordenou a expedição Thayer na Amazônia. Ele esperava reunir no Brasil informações sobre catástrofes naturais que derrubassem a hipótese darwiniana de evolução lenta e gradual.

Há também uma homenagem à tolerância: a presença da monumental coleção Classes e Ordens no Reino Animal. Seu organizador, Heinrich Georg Bronn, embora um fixista com profundas convicções religiosas, foi o primeiro tradutor para o alemão de A Origem das Espécies.

Boa parte dos livros não está em português. Há títulos em norueguês, holandês, dinamarquês, alemão, latim, francês, inglês e japonês. A bibliotecária Cecília Maria da Costa Souza recorda o desafio de classificar obras escritas em idiomas tão diferentes. "Cada livro era uma aventura", afirma. "Tivemos de criar ordem onde ela não existia."

Mas o acervo também encanta quem só conhece uma língua. Muitos livros possuem gravuras pintadas à mão, uma a uma. Questionada sobre a imagem que mais lhe agrada, Nelsita abre um volume do botânico bávaro Carl von Martius sobre a flora brasileira e aponta um ramo de Alloplectus, planta de folhas largas, com flores vermelhas e amarelas. A tinta sobre o papel confere uma textura aveludada à imagem, que ganha realismo.

Mas mesmo a melhor pintura fica aquém da Phycoteca Boreali-Americana. Na estante, parece uma coleção como as demais. Ao abrir a obra, o visitante percebe que tem nas mãos um herbário portátil, uma reunião de centenas de algas de verdade fixadas nas páginas encadernadas dos vários volumes.

Outra curiosidade são os quatro volumes da História Natural das Aves na Europa Central, do fazendeiro e naturalista amador Johann Naumann. Além de belas imagens - como a do papa-figos que ilustra esta página -, o leitor com conhecimentos musicais e boa imaginação descobre os sons emitidos por cada pássaro. A obra apresenta pentagramas com a melodia e a letra do canto em fonemas alemães: "tieueu dieuteuteut ti-eneu".

Resgate de raridades. Parte dos livros veio da Escola Politécnica e da Faculdade de Farmácia. Também foram resgatadas obras raras, quase escondidas, misturadas a títulos comuns. Acervos particulares doados completaram a coleção.

De alguma forma, as obras também guardam marcas das turbulências da história. A equipe de restauração notou perfurações nas capas e no miolo de alguns livros. Uma breve pesquisa revelou as causas dos danos: na década de 1920, o acervo da Escola Politécnica ficava na região central de São Paulo, no antigo solar do Marquês de Três Rios.

Lá, ele sofreu diretamente com os ataques de balas e granadas durante os 24 dias da Revolução de 1924. Nelsita até conseguiu a cópia de um documento, datado de 7 de agosto de 1924, que relata "os estragos causados nos edifícios da escola pelos revolucionários" e avalia o custo das reparações em "60 contos de réis".

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) ofereceu verba para restaurar 2 mil obras e construir a sala especial onde os livros estão acondicionados. A recuperação do resto do acervo contou com o apoio da Fundação Vitae, da Comissão de Pesquisa do IB e da Pró-Reitoria de Pesquisa e Extensão da USP.

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