Ratzinger resistiu a expulsar pedófilo

Em carta de 1985, o atual papa pediu 'tempo' a diocese dos EUA que solicitava havia quatro anos a destituição de padre condenado por abusos

AP e Afp, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

LOS ANGELES

Antes de se tornar o papa Bento XVI, o cardeal Joseph Ratzinger teria resistido a apelos para que um padre americano com histórico de abusos sexuais contra crianças fosse destituído. Em carta de 1985, divulgada ontem pela agência Associated Press, Ratzinger cita "o bem da Igreja" como motivo.

A evidência contraria as afirmações do Vaticano de que Ratzinger não se opôs à remoção de padres pedófilos durante os anos em que liderou a Congregação para a Doutrina da Fé. A carta foi escrita em latim e faz parte de uma troca de correspondência, que durou anos, entre o Vaticano e a diocese de Oakland, na Califórnia, sobre a destituição do padre Stephen Kiesle.

O sacerdote havia sido condenado em 1978 a três anos em liberdade condicional após ter abusado de dois meninos em San Francisco. Após o cumprimento da pena, Kiesle pediu para abandonar o sacerdócio e a diocese enviou ao Vaticano a petição que iniciou o processo.

Na carta de 1985, o futuro papa diz que a Congregação não poderia subestimar a reação da "comunidade dos fiéis em Cristo, particularmente considerando a pouca idade" do acusado, que tinha 38 anos. "É necessário para esta congregação submeter incidentes desse tipo a uma consideração muito cuidadosa, o que pede um período de tempo maior." Kiesle foi removido de suas funções dois anos depois.

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, recusou-se a comentar a carta, embora tenha reconhecido sua autenticidade. "Não é necessário responder a todo documento tirado de contexto que diz respeito a uma situação legal particular", disse.

Audiência. Lombardi também disse que Bento XVI está "disposto a novamente receber vítimas" de abusos, reafirmando o que o pontífice escreveu em recente carta aos irlandeses sobre os escândalos de pedofilia na Igreja. Em 2008, o papa esteve com vítimas dos EUA e da Austrália.

O porta-voz do Vaticano também afirmou que a Igreja vai colaborar com a Justiça na investigação das denúncias, como "a única forma de restabelecer a confiança" dos fiéis. "A transparência e o rigor se impõem como exigências urgentes para atestar uma gestão sábia e justa da Igreja", completou. /

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