Reator produzirá remédio no Brasil

Isótopos radioativos são usados em exames e tratamento de câncer; produto está em falta no mundo todo

Alexandre Gonçalves, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

O Brasil vai construir um reator nuclear para a produção de isótopos radioativos muito usados no diagnóstico e tratamento de câncer e doenças do sistema circulatório. Em uma previsão otimista, ele ficará pronto em 2016. A iniciativa é vista como uma solução a longo prazo para o drama das pessoas que dependem da medicina nuclear no País.

Na semana passada, o corretor Jair Martins deveria realizar um exame renal no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. Um telefonema desmarcou o procedimento. O motivo: faltam isótopos para realizar diagnósticos. Não há previsão para um novo agendamento.

Foi assim que o corretor soube da crise mundial do molibdênio-99, elemento usado em 80% dos procedimentos de medicina nuclear. Como Martins, cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil - e 40 milhões no mundo - dependem da substância para diagnosticar a causa de suas doenças. A empresa canadense MDS Nordion, responsável por 40% da produção mundial de molibdênio-99, desligou o reator em junho, após um problema no sistema de água. Na primeira quinzena de julho, o Brasil não recebeu nenhuma remessa da substância.

Durante a crise, o superintendente do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), Nilson Dias Vieira Júnior, lembra que o telefone não parava de tocar. "Diretores de hospitais de todo o País estavam alarmados e queriam uma solução", diz Vieira Júnior. O Ipen é responsável pela importação, processamento e distribuição do molibdênio-99.

No Hospital A. C. Camargo, em São Paulo, referência no tratamento de câncer, montou-se um esquema de emergência. Exames que não tinham urgência foram remarcados para o mês seguinte. Revisaram-se os protocolos de diagnóstico para otimizar o uso do molibdênio-99 sem afetar a qualidade dos exames. "Foi o lado bom da crise: conseguimos tornar mais eficientes alguns processos", aponta Eduardo Nóbrega Lima, diretor de medicina nuclear do hospital.

O local do novo reator já foi escolhido: Iperó, a 130 quilômetros de São Paulo, bem ao lado de Aramar, centro de pesquisa da Marinha onde o sistema de propulsão do submarino nuclear brasileiro está sendo projetado. O governo estadual já liberou os recursos para comprar o terreno e espera o investimento do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), estimado em R$ 850 milhões.

Hoje, 30% do molibdênio-99 consumido no Brasil vem da Argentina. África do Sul e Israel completam o porcentual. Mesmo assim, a oferta não atende a demanda do País. Segundo estimativa da Sociedade Brasileira de Biologia, Medicina Nuclear e Imagem Molecular (SBBMN), a importação cobre de 50% a 60% da necessidade nacional, o que provoca atrasos nos exames, como o vivenciado por Martins. "A crise não acabou e está afetando milhares de pacientes", sublinha José Soares Júnior, presidente da SBBMN.

Há previsões sombrias para o futuro. Em janeiro, o reator argentino vai parar para manutenção. Na semana passada, a SBBMN enviou carta ao ministro da Ciência e Tecnologia (MCT), Sérgio Rezende, questionando quais medidas serão adotadas para minimizar o impacto da diminuição no fornecimento da substância.

Para o diretor do serviço de medicina nuclear e imagem molecular do Incor, Claudio Meneghetti, o reator é uma ótima notícia, mas vai demorar para trazer algum benefício. "Precisamos urgentemente de um plano de contenção", afirma Meneghetti. "Do jeito que está, há muita burocracia para trocar de fornecedor quando ocorre uma crise."

DINHEIRO

O mundo demanda anualmente 1,2 grama de molibdênio-99. Cabe, com folga, em uma colher de chá. Cada pessoa necessita de 30 nanogramas do elemento para realizar um exame, menos de 10% do peso de um grão de areia fina. Uma produção tão pequena tem um valor estimado em R$ 500 milhões, mercado em que o Brasil poderá ingressar com o novo reator.

Mas o molibdênio-99, como qualquer material radiativo, sofre uma rápida desvalorização. Como o preço depende da radioatividade, o valor da substância cai pela metade a cada 66 horas, de modo proporcional à emissão de radiação. Os átomos de molibdênio-99 transformam-se em átomos de tecnécio-99m - substância radioativa injetada nos pacientes - que possui uma meia-vida ainda menor: apenas seis horas. Ou seja, bastam algumas semanas para o material perder a maior parte da radioatividade e não valer um centavo.

O secretário de Desenvolvimento de São Paulo, Geraldo Alckmin, recorda que 40% do molibdênio-99 importado pelo País é consumido no Estado. "Devido ao tempo de decaimento, é importante que o reator esteja aqui", aponta Alckmin. O Sudeste absorve 60% do produto que chega ao Ipen.

Com a crise, o custo da substância cresceu 400%. Segundo Vieira Júnior, o Ipen deverá sofrer um déficit de R$ 5 milhões com as importações de molibdênio-99 até o fim do ano e espera ser ressarcido pelo MCT. Foi preciso abrir mão de investimentos em pesquisa para comprar o isótopo.

Soares Júnior pondera que o reator produzirá outros isótopos utilizados para tratar doenças. "No Brasil, a medicina nuclear é muito usada para realizar diagnósticos", aponta o médico. "Por outro lado, ainda engatinhamos nas terapias."

Segundo o coordenador técnico do futuro reator, José Augusto Perrotta, a construção pode começar a partir de 2011. Até lá, o projeto será detalhado e se conseguirão as autorizações necessárias. O presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Dias Gonçalves, afirma que o Brasil estuda contar com o apoio da Argentina na construção do reator, especialmente na fase de separação do molibdênio-99.

Durante três semanas, o Estado tentou contato com o ministro Sérgio Rezende para confirmar a previsão dos investimentos no novo reator - um projeto listado no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) -, mas não obteve sucesso.

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