Recessão nas contas externas

Aos trancos e barrancos as contas externas dão sinais de melhora, com a conta comercial de novo superavitária e o déficit em conta corrente em firme declínio. É uma rara notícia positiva, num cenário de recessão, desemprego em alta, inflação ainda muito elevada e enorme desarranjo nas contas públicas. Mas até a recuperação do setor externo reflete as más condições da economia nacional. Com a atividade em recessão, consumo retraído, investimento produtivo em queda e dólar em alta, a importação de mercadorias tem despencado, assim como os gastos ligados ao turismo. Por trás de boas novidades, como o superávit de US$ 6,33 bilhões no comércio de mercadorias, de janeiro a julho, há, portanto, uma porção de fatores negativos. Em 2014, nesse período, o saldo comercial foi um déficit de US$ 889 milhões, calculado pelos critérios do Banco Central (BC).

O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2015 | 02h55

A soma de recessão e depreciação cambial geralmente produz dois efeitos positivos, por enquanto só observados parcialmente no Brasil. Um deles é a melhora das contas externas, com redução dos gastos em moeda estrangeira e aumento da receita. As exportações ficam mais baratas em moeda estrangeira e isso torna a produção nacional mais competitiva. Essa mudança pode favorecer, no meio da crise, a manutenção ou mesmo a criação de empregos em alguns segmentos empresariais. O segundo efeito positivo é a baixa da inflação.

No Brasil, até agora, a crise tem seguido um roteiro um tanto diferente daquele observado com mais frequência na maior parte dos países. A inflação continua muito alta e provavelmente ainda estará acima de 9% no fim deste ano. Cairá nos dois anos seguintes, mas as previsões ainda apontam resultados acima da meta de 4,5% até 2017. Além disso, o roteiro também se diferencia pela retração das vendas ao exterior, apesar do real depreciado e do provável interesse dos empresários em buscar mercados no exterior.

De janeiro a agosto, o valor importado, de US$ 121,30 bilhões, foi 21,56% menor que o de um ano antes. Na mesma comparação, o valor exportado, de US$ 127,63 bilhões, foi 16,88% inferior ao dos meses correspondentes de 2014. A melhora do saldo comercial decorreu, portanto, só da redução da despesa, consequência da recessão, porque a geração de receita foi um fiasco. Isso se explica em parte pela queda de preços dos produtos básicos e em parte pelo baixo poder de competição da maior parte das indústrias. A excessiva dependência das vendas de matérias-primas – e, portanto, do crescimento chinês – e o enfraquecimento do setor industrial são decorrências de erros da política econômica e da diplomacia comercial dos governos petistas.

Até o fim do ano as contas externas manterão a tendência observada até agora, segundo os economistas do BC. Em sua nova projeção, eles diminuíram de US$ 81 bilhões para US$ 65 bilhões o déficit em transações correntes esperado para 2015. No ano passado, o buraco chegou a US$ 103,59 bilhões, ou 4,42% do Produto Interno Bruto (PIB), e foi financiado apenas parcialmente com investimento direto, de US$ 95,89 bilhões. Neste ano, esse investimento – o mais seguro e mais vinculado à produção – deverá ficar em US$ 65 bilhões e, apesar da diminuição, bastará para cobrir o déficit em conta corrente.

O saldo comercial, negativo em US$ 6,05 bilhões no ano passado, passará a um superávit de US$ 12 bilhões neste ano, com melhora, portanto, de cerca de US$ 18 bilhões. Essa evolução resultará da redução do valor importado (menos 21,94%), porque a exportação será 14,51% menor que a de 2014. Além disso, economia mais fraca e dólar mais alto diminuirão o déficit de viagens, transportes, aluguéis de equipamentos e outros serviços.

A redução do déficit externo pode ser positiva, mas só haverá motivo realmente forte para comemoração quando a indústria se tornar de novo competitiva e a economia tiver condições de retomar com segurança o crescimento. Nada, por enquanto, indica mudanças nessa direção.

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