Recife já vê efeitos de alta do nível do mar

Ocupação de aterros de mangues e áreas alagadiças agrava problema

Afra Balazina e Angela Lacerda, RECIFE, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2009 | 00h00

Casas, prédios, comércio e ruas na zona costeira, ameaçados pelo aumento do nível do mar, somariam prejuízo de R$ 207,5 bilhões caso fossem destruídos ou danificados. "Fizemos uma avaliação bastante modesta, só do patrimônio que está em risco. Não está embutida a realocação das pessoas", explica Carolina Dubeux, coordenadora técnica do estudo Economia das Mudanças do Clima no Brasil.

No Grande Recife há um esforço para avaliar os locais mais suscetíveis ao aumento do nível do mar. As áreas mais vulneráveis são a Ilha de Deus e as praias de Piedade e Candeias, segundo pesquisa da Sociedade Nordestina de Ecologia (SNE) em parceria com a Prefeitura do Recife. Com a elevação de 1 metro no nível do mar, bairros como Pina, Boa Viagem, Afogados, Imbiribeira, Jiquiá e Ipsep seriam afetados.

O presidente da SNE, Marcelo Mesel, ressalta que é preciso ter cuidado ao tratar do assunto, pois a divulgação de dados desse tipo pode gerar pânico e provocar a desvalorização de áreas. Mas, a partir das informações, o governo, com a população e especialistas, pode traçar planos de ação.

Recife é sensível porque uma parte considerável de sua planície tem cotas baixas (altitude média entre 2 e 4 metros) e existe uma grande rede hidrográfica na área (5 rios e 66 canais). O problema se agrava com a ocupação de aterros de mangues e áreas alagadiças. A previsão é que, com o aumento do nível do mar, ocorram redução da largura das praias, transbordamento de rios e canais e inundações. Segundo Mesel, não foi estimado quantas pessoas podem ser afetadas. Mas moradores tanto de áreas mais nobres quanto de regiões carentes percebem o problema.

Solange Godoy, de 58 anos, preocupa-se com a questão desde 2002, quando o mar avançou rapidamente. A larga faixa de areia, onde antes havia quadra de vôlei e quiosques de venda de água de coco, desapareceu. O mar também destruiu parte do muro do edifício Maria Paula, onde ela mora há dez anos, na praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes - uma continuação, ao sul, da orla recifense. "Se algo acontecer, devemos ser os primeiros atingidos, mas vai sobrar para todo mundo."

O avanço do mar em Piedade foi provocado especialmente pela construção do complexo industrial e portuário de Suape, em Ipojuca, ao sul. "As correntes marítimas levavam a areia da praia. Os tubarões vieram junto." Com a construção de um dique e a colocação de pedras para conter o mar, a situação aparentemente se estabilizou. Mas Solange sabe que não é apenas isso. "A gente vê as notícias. Com o aquecimento global, a calota polar está sendo reduzida, o gelo, derretendo e engordando os oceanos."

Na comunidade do Bode, no Pina, a população convive com a falta de emprego, de água encanada e com a violência. Nem por isso o aquecimento global deixa de fazer parte do dia a dia. A diarista Cleide Dias, de 38 anos, diz ter "consciência de que a área do Bode é de risco". Mesmo com tantos problemas, Cleide não consegue se desligar da ameaça da invasão do mar. "O aquecimento global atinge todo mundo, não importa a cor, religião, classe social", diz.

VAZANTE

No Amazonas, segundo a Defesa Civil, pelo menos 8 dos 62 municípios sofrem com a vazante estendida dos rios. O Rio Negro, que banha Manaus, desce cerca de 2 centímetros por dia. Os municípios mais atingidos são os mais próximos de Manaus, como Manaquiri e Careiro da Várzea, ambos a cerca de 30 quilômetros da capital, depois de travessia de balsa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.