Recrutado na porta, repórter vira fiscal

Jornalista do 'Estado' pega fila, é chamado para trabalhar em vaga de profissional ausente e recebe treinamento duas horas antes do início do exame

PAULO SALDAÑA, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2011 | 03h01

Apesar de o Ministério da Educação afirmar que o Enem tem uma equipe de fiscais cadastrados e previamente treinados, a realização do primeiro dia do exame contou com "voluntários" escolhidos sem critério, na porta do local do exame.

Pelo menos foi assim na manhã de ontem na Unip da Água Funda, zona oeste de São Paulo, onde cerca de 30 pessoas foram selecionadas em uma repescagem em que o único critério foi apresentar o documento original de identificação. Eu fui um dos que, com RG na mão, entrei na fila e garanti uma vaga para a fiscalização. No local, havia 8 mil candidatos inscritos.

Por volta de 8 horas as portas da universidade já estavam cheias. Muitos estavam lá a pedido de amigos, primos, tias e conhecidos que trabalhariam ou trabalharam na organização da prova. Elas receberam e-mail com recomendações sobre horários e tipo de vestuário: camisa branca e, caso estivesse frio, agasalho branco ou preto - o que pouca gente respeitou.

Primeiro entrou quem já tinha nome para a fiscalização. Quase meia hora depois, os organizadores da unidade voltaram para a portaria e recrutaram os não cadastrados e desconhecidos.

Um segurança anotou nomes e documentos. Alguns diziam que haviam tentado se cadastrar sem obter sucesso. Para mim, só perguntaram se eu tinha o nome na lista. Disse que não e fui prontamente contratado. Por cada dia de trabalho, os fiscais recebem R$ 65, além de alimentação com suco, mini goiabada e um salgado de presunto e queijo - muito criticado ontem na Unip.

Fomos levados às pressas para o anfiteatro, onde o treinamento já havia começado. Faltavam menos de duas horas para a abertura dos portões e centenas de fiscais deveriam dominar como aplicar a prova.

No palco, uma coordenadora detalhou como se portar em caso de cola, o que é ou não é permitido na sala, na mesa, embaixo da cadeira, a cor da caneta. Depois da palestra, respondeu a dúvidas e mostrou um filme com orientações sobre os procedimentos de entrega das provas, com informações como onde assinar os cadernos, o que orientar ao inscrito, como distribuir as provas. Apesar da qualidade do vídeo, via ao meu lado rostos de dúvidas tão agudas quanto as minhas. Era de fato muita informação.

Embriagados. Antes de indicar quem seriam os responsáveis por cada sala, a palestrante fez uma advertência importante. "Pessoal, já chegaram cinco fiscais embriagados. Se tiver alguém que foi para balada, que não está bem, por favor avise."

Muitos dos chamados não apareceram e assim que todos os pré-selecionados presentes tomaram seus postos, a coordenadora apontou uma pessoa da primeira fileira. Perguntou se ela tinha experiência em aplicação de concursos ou vestibulares. A mulher disse que não e, questionado, eu também confirmei minha inexperiência. A coordenadora fez mais duas tentativas, voltou a me apontar e disse "vai você. Sala 563, bloco B". Parti.

A 563B tinha 76 inscritos, por isso eram três fiscais - apenas 49 fizeram o exame. Ali, apenas um dos três havia atuado em edições anteriores. Eu e outra fiscal nunca havíamos atuado em provas.

Desorganização. Pouco antes do meio dia, horário da abertura dos portões, havia salas com carteiras amontoadas - em uma delas, duas mulheres estavam desesperadas para organizar tudo. Alguns fiscais, também debutantes, ainda não entendiam bem se os candidatos deveriam assinar a lista de presença ao chegar ou ao sair. E se a lista ficava na porta ou na mesa no centro da sala.

Depois começou a busca pelo giz para as orientações na lousa. Conseguimos um pequeno pedaço azul. A guerra seguinte foi para conseguir uma caneta - ao longo da prova, é necessário preencher uma série de informações sobre o exame. Revezamos uma única caneta com duas salas.

Assim que os inscritos começaram a entrar, um candidato surge com um RG xerocado. Recorro ao coordenador do corredor, que autoriza sua participação caso o papel seja confiável. Coube a mim a decisão e ele fez o exame. O manual com as instruções previa um toque de sirene para o início das provas. O sino tocou e ainda estávamos distribuindo os cadernos. Ninguém consultado pela reportagem naquele corredor assinou o Termo de Compromisso sobre confidencialidade e frequência, o que, em tese, seria obrigatório.

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