Regionalismo ‘soft’

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

FABRÍCIO H. CHAGAS BASTOS*, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2015 | 19h42

Mangabeira Unger, ministro de Assuntos Estratégicos de Dilma, causou, a um só turno, desconforto nas comunidades política, diplomática e acadêmica brasileiras com suas declarações sobre um Mercosul “sem espírito” e uma política externa “sem uma orientação”.

Antes de tudo, pesos e medidas precisam ser estabelecidos. Duas posições derivam do dito por Unger. A primeira se investe da própria função de pensador de projetos de longo prazo no comando da SAE, isto é, criar opções para mudanças de direção política ao governo que serve (ou em visão ampliada, ao Estado brasileiro); a segunda, talvez bem menos óbvia, mostra uma antevisão de que a China tenha adquirido na América do Sul um modus operandi mais liberal do que os Estados Unidos - histórico e temido parceiro (assimétrico) dos países da região.

De fato, as propostas de Unger soam estranhas por sua posição e alinhamento ideológico, dado que ecoam o que José Serra e Aécio Neves propuseram para o bloco sul-americano enquanto candidato à Presidência. Isto é, desengessar o arranjo de integração regional a partir de um revitalização de seu escopo meramente comercial (suspensão da Tarifa Externa Comum) e a liberação dos sócios para que firmem acordos de livre-comércio independentes uns dos outros (e do bloco).

Não é a primeira e nem será a última vez que dirijo críticas à baixa institucionalidade do bloco e ao voluntarismo político que revestem as ações dos sócios, fazendo com que todos os envolvidos se vejam presos em um acordo sem futuro. Foi-se a fase de enxergar um arranjo de integração regional como um ‘escudo de proteção’ à globalização ou um ‘catalisador de acúmulo de poder’ para projetos nacionais. Pensar de ambas as maneiras é manter o estado de coisas por mais tempo - gasto inútil de capital político.

Já não é de hoje que várias vozes no Brasil clamam por uma “ginástica na cela” sobre o pensamento internacional brasileiro, ou em outros termos, sobre o ‘pensar o lugar do Brasil no mundo’. Sim, Unger está correto quando diz que nos falta projeto de longo prazo para o lugar do País no mundo. Há que se pesar se o parceiro preferencial vai ser uma China, que faz avançar o processo de desindustrialização brasileiro, ou os Estados Unidos, que poderiam jogar por terra boa parte dos avanços em setores competitivos construídos a duras penas no País.

Não é preciso entender muito de espíritos para saber que há muito a ‘alma integradora’ do Mercosul não existe mais. Tampouco é preciso ser vidente para saber que Lula realizou um política externa anormal, o que quer dizer completamente fora dos padrões vistos até então. Cardoso quando usou da diplomacia presidencial não foi tão enfático com esse recurso de política externa. Hoje, o perfil gerencial de Dilma, pouco afeito à política (interna ou externa), reduziu em muito a intensidade dos feitos do antecessor. Mangabeira Unger pode ter errado na forma, claudicante no conteúdo, mas certamente conseguiu abrir uma janela de oportunidade ao debate de como queremos agir nos próximos anos.

* FABRÍCIO H. CHAGAS BASTOS É DOUTOR E PESQUISADOR DO NÚCLEO DE PESQUISA EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP. E-MAIL: fchagasbastos@usp.br

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