Rei comilão apagou na noite de núpcias

LUÍS XVI E MARIA ANTONIETA - 'Durmo melhor quando como bem' O banquete de casamento é uma ocasião para as pessoas comerem e beberem muito – e sem ressaca moral. São excessos tolerados internacionalmente. Mas a condescendência exclui os noivos. Exige-se que sejam anfitriões impecáveis e estejam em forma na noite de núpcias. Em maio deste ano, um taiwanês de 35 anos morreu no dia do casamento, após comer e beber excessivamente. "Todos estavam se divertindo bastante", contou escandalizado um dos mais de cem convidados presentes. "Ele quis fazer o mesmo." As agências de notícias espalharam o fato pelo mundo afora. Átila, o rei dos hunos, bárbaro e glutão, pode ter morrido pela mesma razão, no século 5º d. C., após unir-se à goda Ildico, embora o historiador e sofista bizantino Prisco de Pânio, seu contemporâneo, tenha afirmado que a causa foi uma hemorragia nasal. No século 18, o delfim da França e futuro rei Luís XVI, homem de temperamento fraco e apetite voraz, teve mais sorte. Abusou da comida no banquete de casamento com Maria Antonieta, arquiduquesa da Áustria, mas sobreviveu à severa indigestão. Em compensação, não deu a necessária atenção à noiva. Seu avô e antecessor Luís XV, o Bem Amado, preocupado com a indiferença, tentou conter o neto. "Não carregues tanto o estômago", disse-lhe. Luís XVI, que tinha apenas 16 anos de idade (Maria Antonieta estava com 14), replicou: "Durmo melhor quando como bem." Conta-se que a noiva, ao ouvir isso, empalideceu. Traído pela comida, Luís XVI dormiu profundamente, sem tocar em Maria Antonieta. Não por acaso, demorou sete anos para consumar o casamento. Depois da sua coroação, a comida no Palácio de Versalhes, residência do rei e sede da corte, tornou-se mais variada. No reinado do avô, saber cozinhar e comer bem eram sofisticações. O próprio Luís XV colocava a mão na massa. Saía-se bem não só em receitas de sal, como nos acompanhamentos para o café diário, que ele mesmo preparava. Os nobres o imitavam. Príncipes, duques e marqueses também se dedicavam à cozinha ou contratavam chefs que criavam pratos principais, guarnições e molhos com os nomes dos patrões. Quanto a Luís XVI, não se interessava pela técnica culinária. O que ele realmente gostava era de comer bem. Seu antecessor, Luís XV, respeitou ao pé da letra a etiqueta de Versalhes. Três vezes por semana, ele e a mulher almoçavam com os familiares. O casal sentava junto, acompanhado pelos príncipes de Condé, de Conti, os duques de Orléans, de Maine y de Penthièvre-Toulouse, dispostos na mesa segundo a rigorosa ordem de sucessão e primogenitura. O clima era formal. Ficou ainda mais solene quando Luís XV, perdendo os dentes, passou a mastigar mal. Os alimentos sólidos praticamente desapareceram das refeições de Versalhes e, como o rei era modelo, introduziu-se nova regra de etiqueta: as pessoas evitavam movimentar as mandíbulas enquanto comiam. Mastigar em público virou grosseria. Até se garantiu que deformava o rosto. Felizmente, após a coroação de Luís XVI, graças ao seu desinibido prazer de comer, voltou-se a mastigar energicamente. Algumas histórias documentam o apetite do rei. Certa manhã, voltando de uma caçada, ele perguntou o que havia para comer. "Senhor, há um frango gordo e umas bistecas", respondeu o criado. Insatisfeito, Luís XVI replicou: "É muito pouco. Ponha meia dúzia de ovos picados em um caldo de carne e acrescente uma grossa fatia de presunto." Desinteressado da política e incapaz de enfrentar a Revolução Francesa, Luís XVI foi destronado. Nos últimos anos, levava vida reclusa e ocupava o tempo em caçadas, trabalhos manuais e, obviamente, continuava a comer bem. A insurreição o fez trocar Versalhes pelo Palácio das Tulherias, em Paris. Tentou fugir da França com a família, abastecido de merendas, mas foi interceptado ao atravessar o sudoeste do país. Acusado de aliança secreta com os inimigos austríacos, conterrâneos de Maria Antonieta, que aliás invadiram a França, foi guilhotinado. Às vésperas da execução, o rei traído pela comida na noite de núpcias se revelou inapetente. Brincadeiras à parte, ele demorou a consumar o casamento por outra razão: sofria de dolorosa fimose, eliminada cirurgicamente. jadiaslopes@terra.com.br

Dias Lopes,

29 Outubro 2009 | 13h30

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