Relação Brasil-Irã segue positiva com Dilma, diz embaixador

Sob crescente pressão internacional por conta de seu programa nuclear, o Irã considera que as relações diplomáticas com o Brasil seguiram positivas depois que Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República.

JEFERSON RIBEIRO, REUTERS

19 de janeiro de 2012 | 19h33

Em conversa com jornalistas nesta quinta-feira, o embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh Yazdi, afirmou que é natural que Dilma desse mais atenção aos temas internos no começo da gestão e rejeitou a hipótese de que a relação entre os dois países tenha esfriado após a saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Apesar disso, ele afirmou que não vê no atual momento de tensão internacional possibilidades para que o Brasil participe de uma tentativa de mediação para um novo acordo na área nuclear, como fez em 2010. Os EUA e vários países europeus suspeitam que o Irã esteja tentando desenvolver armas nucleares, algo que Teerã nega.

"Nesse processo (de negociação) qualquer país do mundo que queira ajudar... será bem-vindo. Da última vez sabemos que o Brasil trouxe uma mensagem dos Estados Unidos da América e com boa vontade. E nesse momento não sei. Não sei como o Brasil participará", afirmou.

Yazdi, que está deixando o posto nos próximos dias e retornando a Teerã, participou das negociações entre Brasil, Turquia e o Irã em 2010, quando o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, aceitou um acordo para o envio de parte de seu urânio ao exterior em troca de combustível nuclear.

Na época, Lula foi a Teerã negociar a assinatura do documento e acreditava que teria apoio dos Estados Unidos e dos países do Ocidente caso firmasse o acordo com o Irã.

Contudo, as grandes potências permaneceram céticas e semanas após o anúncio festivo dos três países o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aplicou uma nova rodada de sanções à República Islâmica.

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse à Reuters nesta quinta-feira que a participação do Brasil nas negociações de 2010 foi uma tentativa de mediação que "ficarão registradas nos livros de história" e deu a entender que o país não se envolverá novamente de forma direta no curto prazo.

Questionado sobre a relação com Dilma, Yazdi disse que continua igual à dos tempos de Lula. "Nós achamos que não há diferenças no comportamento. Assim como também recebemos mensagens (nesse sentido) por parte de autoridades brasileiras nas conversas que nós tivemos", disse o embaixador.

Segundo ele, o programa nuclear é um orgulho nacional e o país está disposto a negociar, mas não abrirá mão do seu direito de desenvolver um projeto nuclear. "Não aceitaremos imposições de outros países", disse.

Ele lembrou ainda que agora o Irã já dominou a técnica de enriquecimento de urânio e, portanto, não aceitará mais um acordo que preveja a importação do combustível nuclear.

No início de janeiro, o governo iraniano confirmou o início de enriquecimento de urânio num local subterrâneo de Fordow, próximo à cidade sagrada de Qom.

Yazdi frisou também que apesar das quatro sanções já aplicadas pelo Conselho de Segurança da ONU, o Irã não sentiu o impacto na sua economia e tem conseguido se desenvolver e aumentar o volume de comércio exterior.

POLÊMICA NO ESTREITO DE ORMUZ

O embaixador também comentou a tensão no Estreito de Ormuz, a saída do Golfo Pérsico por onde são transportados cerca de 60 por cento do petróleo consumido no mundo.

Recentemente, o Irã realizou exercícios militares na região, levantando suspeitas na comunidade internacional sobre a possibilidade de os iranianos fecharem a passagem se novas sanções prejudicarem as exportações de petróleo de Teerã.

O governo norte-americano tem dito que não permitirá o fechamento do estreito.

Ele afirmou que a tensão não se aproxima de um "clima de guerra" como tem "dito o governo dos Estados Unidos". Mas disse que o Irã está atento aos movimentos do país ocidental e pode tomar providências caso julgue necessário.

"Estamos prontos para responder", disse. Segundo ele, caso o estreito seja fechado, há estimativas do governo norte-americano de que o preço do barril de petróleo pode chegar a 220 dólares.

(Reportagem adicional de Ana Flor)

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