Relação entre químicos e câncer é subestimada

Documento de cientistas americanos mostra que não há estudos sobre a segurança da grande maioria das 80 mil substâncias usadas pela indústria

Karina Toledo, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

A influência de substâncias químicas presentes na comida, na água e no ar no desenvolvimento de câncer é subestimada e, embora seja possível preveni-la, pouco tem sido feito a respeito. O alerta está em um relatório divulgado na semana passada nos EUA. De acordo com especialistas ouvidos pelo Estado, a situação no Brasil pode ser ainda pior.

"Somente algumas centenas das mais de 80 mil substâncias químicas usadas nos Estados Unidos passaram por testes de segurança. Não há regulamentação para muitos produtos sabidamente carcinogênicos ou para substâncias suspeitas de causar câncer", diz o relatório do Conselho de Câncer do Presidente. O órgão é composto de especialistas responsáveis por acompanhar os programas americanos para o controle da doença.

O documento aponta como causa leis fracas, autoridade fragmentada em agências reguladoras e falta de investimento em pesquisa. Culpa ainda o conceito de que os produtos químicos são seguros, a menos que fortes evidências provem o contrário.

"Há substâncias, como alguns agrotóxicos, contra as quais ainda não há evidências suficientes para se classificar como carcinogênico. Mas são consideradas prováveis causadoras de câncer e isso deveria ser o bastante para evitar o uso e buscar alternativas", afirma Ubirani Otero, coordenadora da Área de Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho e ao Ambiente do Inca.

Segundo Ubirani, o quadro brasileiro é ainda mais preocupante que o americano. "Por ser um País em desenvolvimento, abriga tecnologias e substâncias que já foram banidas em outros países", diz ela, citando como exemplo as indústrias que utilizam amianto, sílica e benzeno. "Por causa de uma legislação falha, há empresas que fecham e abandonam seu lixo tóxico sem cuidado. Em outros países isso seria um crime grave."

Perigo em casa. De acordo com Sonia Hess, engenheira química e consultora do Ministério Público Federal nas áreas de saúde e meio ambiente, diversos produtos comuns em residências - como detergentes, mamadeiras, utensílios de plástico, protetores solares e brinquedos - contêm componentes suspeitos de interferir no funcionamento do sistema hormonal humano. Entre essas substâncias, a mais debatida atualmente é o bisfenol A, ou BPA, que simula no organismo a ação do hormônio feminino estrogênio.

"Antes, ninguém desconfiava que essas substâncias faziam mal. E, agora, o uso está tão difundido que é muito difícil eliminar", afirma. Segundo Sonia, mesmo em pequenas quantidades, os desreguladores hormonais podem causar problemas à saúde, principalmente de crianças. "Além do potencial carcinogênico, estudos estão ligando essas substâncias ao fato de que meninas estão menstruando mais cedo, à diabete, hiperatividade, obesidade e alteração no desenvolvimento sexual."

O relatório americano chama atenção para o fato de que alguns tipos de câncer estão ficando mais comuns, principalmente em crianças, e recomenda atenção especial para esse grupo e para mulheres grávidas. "Crianças correm maior risco, pois estão em período de rápido desenvolvimento e possuem menor peso. Isso aumenta sua vulnerabilidade", diz o relatório.

Bebês pré-poluídos. Estudos recentes encontraram produtos químicos industriais no sangue do cordão umbilical. "Os bebês estão nascendo pré-poluídos", afirma o conselho.

Entre os potenciais perigos mencionados no documento estão também pesticidas, fertilizantes, derivados de produtos farmacêuticos que contaminam a água por meio do esgoto, produtos químicos de uso doméstico, poluentes emitidos pelos carros e caminhões, câmaras de bronzeamento e a radiação eletromagnética não ionizante, como a emitida por celulares.

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