Relações entre EUA e Israel são as piores em 53 anos

Apesar de objetivos comuns, líderes dos dois países divergem sobre a forma de buscar soluções conjuntas

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

As relações entre os governos dos EUA e de Israel vivem um dos piores momentos desde a Guerra de Suez, em 1956, quando ambos os países estiveram em lados opostos no conflito do Egito com potências europeias. Apesar de concordarem nos objetivos finais de impedir um Irã nuclear e de criar um Estado palestino, as administrações de Barack Obama e de Benjamin Netanyahu divergem sobre os meios para alcançar estes fins.

Os EUA têm priorizado as negociações no congelamento da expansão dos assentamentos na Cisjordânia, ainda que amenizando o tom em recente declaração da secretária de Estado americano, Hillary Clinton, na qual ela elogia o avanço israelense. Israel considera esta exigência prejudicial ao processo e aceita apenas uma interrupção parcial em construções nas colônias já existentes no território reivindicado pelos palestinos para um futuro Estado.

Os americanos também descartam uma ação militar preventiva contra instalações nucleares iranianas. Já membros da coalizão de governo do premiê israelense Benjamin Netanyahu consideram esta a única alternativa para impedir o regime de Teerã de desenvolver uma bomba atômica. Na avaliação do governo americano, uma ação contra o Irã colocaria em risco tropas dos EUA no Iraque e no Afeganistão, elevaria o preço do petróleo e poderia irritar outros aliados americanos na Europa e no Oriente Médio.

O desgaste é tanto que, na semana passada, Obama recebeu Bibi à noite, longe da imprensa e com o encontro marcado de última hora. Cinegrafistas e fotógrafos não puderam registrar a reunião e a imagem deles foi divulgada apenas quatro dias mais tarde, algo incomum na Casa Branca. Jornais em Washington e Tel-Aviv dizem que os dois queriam esconder suas diferenças sobre a questão dos assentamentos e a ameaça nuclear iraniana.

Ao priorizar as relações com o mundo islâmico, no Cairo, Obama também provocou insatisfação em Israel, onde, segundo pesquisas, é visto como o presidente americano mais impopular da história israelense.

Estas más relações sequer contribuíram para fortalecer o lado palestino, segundo Sara Roy, principal especialista em Oriente Médio da Universidade Harvard. A professora explica que, na verdade, as negociações para o conflito entre israelenses e palestinos acontecem apenas por meio de Israel e EUA. "Os palestinos são muito fracos para poder se impor", diz. Neste contexto, Obama nunca apresentou um plano de paz para o conflito, priorizando a questão dos assentamentos.

Apesar da deterioração no conflito entre israelenses e palestinos, Obama conta com o apoio de parte da comunidade judaica americana, que votou em peso nele nas eleições do ano passado. Lobbies pró-Israel mais liberais apoiam a decisão de Obama bater de frente com o governo israelense. Ser pró-Israel "implica em querer o fim dos assentamentos, já que esta é a única maneira de os israelenses viverem em uma democracia judaica", afirma Amy Spitalnick, da J-Street.

"Obama não está nem há um ano no poder", afirma Nick Bulzl, pesquisador do Israeli Policy Forum, outra organização judaica que defende o fim dos assentamentos como forma de tornar Israel um país mais seguro no longo prazo.

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