Relato de execução por cães na Coreia do Norte era trote

O frenesi midiático internacional devido ao relato de que uma matilha de cães famintos teria realizado a execução de um tio do líder norte-coreano, Kim Jong Un, parece ter surgido como uma sátira em um site chinês.

JAMES PEARSON, Reuters

06 de janeiro de 2014 | 11h24

O relato, reproduzido por um jornal de Hong Kong e a partir daí pelo mundo todo, levou muitos a crerem que o jovem dirigente Kim é ainda mais brutal e imprevisível do que se acreditava até então.

A Coreia do Norte anunciou oficialmente no mês passado que o outrora poderoso tio Jan Song Thaek foi destituído de suas funções e executado por ter tentado perverter o regime comunista chefiado por Kim, que tem cerca de 30 anos e é filho e neto dos dois primeiros dirigentes da Coreia do Norte.

A especulação inicial era de que Jang havia sido morto por um pelotão de fuzilamento, o que supostamente é reservado a "traidores" do regime. Mas uma narrativa alternativa para a morte de Jang, de 67 anos, surgiu a partir do que pareceu ser uma postagem satírica do site chinês Tencent Weibo, depois reproduzido por veículos jornalísticos "sérios".

A postagem de 11 de dezembro dizia que Jang e cinco assessores haviam sido mortos por cães. A nota foi vista 290 mil vezes.

O jornal Wen Wei Po reproduziu a notícia, dizendo que Jang havia sido dilacerado por cães, e publicou uma reprodução de tela da postagem do Tencent Weibo.

Doze dias depois, a nota foi reproduzida no Straits Times, de Cingapura, e a partir daí por vários veículos impressos e canais de TV nos EUA e Europa.

Poucos meios de comunicação independentes têm sucursais em Pyongyang, e jornalistas que visitam o país costumam ser rigorosamente monitorados, o que dificulta a difusão de informações a respeito da Coreia do Norte, um dos países com menos liberdade de imprensa no mundo. Por causa dessa situação, muitas histórias escabrosas a respeito do país acabam ganhando credibilidade.

Trevor Powell, engenheiro de computação que vive em Chicago, foi o primeiro a notar o link para a postagem do Tencent Weibo, o que comentou em seu próprio blog. Segundo ele, analistas e especialistas "ainda não perceberam o fato óbvio de que a fonte original da reportagem no Wei Wei Po era um tuíte de um conhecido satirista ou de alguém fazendo se passar por ele/ela".

Funcionários do Wen Wei Po não quiseram comentar o suposto trote.

(Reportagem adicional de James Pomfret e Yimou Lee, em Hong Kong; e John Ruwitch, em Xangai)

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