Relator da CPI quer revelar relação da Delta com Cachoeira

Um dos principais objetivos do relator da CPI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), é detalhar qual a participação da construtora Delta na organização criminosa chefiada pelo empresário Carlinhos Cachoeira, uma investigação que pode atingir a relação da empresa com governos estaduais e federal.

JEFERSON RIBEIRO, REUTERS

09 Maio 2012 | 23h14

A construtora está no centro das denúncias envolvendo o empresário, preso desde fevereiro acusado de chefiar uma quadrilha de jogos ilegais, e a CPI foi instalada para investigar os laços dele com agentes públicos e privados, incluindo o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO).

"A mim interessa saber qual o papel da Delta na organização criminosa. Ela lavou dinheiro? Ela toda estava envolvida? Seus diretores integravam a organização?", disse o parlamentar em entrevista à Reuters nesta quarta-feira.

Inicialmente, Cunha disse que não pretende focar sua investigação nos contratos firmados pela empreiteira nas esferas estaduais e federal, "a menos que fique evidenciado que a organização usou a Delta para chegar em governos. Aí deve ser perseguido por nós", explicou.

O petista admitiu que sua principal dificuldade como relator será estabelecer um foco de investigação que leve a comissão a indiciar todos os envolvidos com a organização de Cachoeira.

Cunha espera que o movimento da CPI incentive os órgãos de controle dos Estados a investigar os contratos firmados com a empreiteira. Para ele, esse não é o foco do trabalho da CPI.

Diferentemente de outros colegas de comissão, Cunha não defendeu que todos os contratos da empreiteira com entes públicos sejam suspensos por precaução administrativa.

"A dúvida minha é ao contrário. A paralisação de obras em curso é melhor ou pior para o interesse público? Pode ser que a paralisação seja pior", analisou.

Na terça-feira, após ouvir o depoimento do delegado Alexandre Marques de Souza, responsável pela operação Vegas da Polícia Federal, que originou a CPI, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) disse que o ideal era a suspensão dos contratos.

"A precaução recomenda que todos os contratos da empresa (em âmbito federal) sejam suspensos", disse Rodrigues. Cunha afirmou que não há elementos ainda para considerar a Delta uma empresa "inidônea".

SIGILO

Nos primeiros dias da CPI, algumas polêmicas que não têm relação direta com a investigação ficaram estabelecidas e entre elas está o sigilo dos documentos que ficam de posse da comissão, como os inquéritos das operações Vegas e Monte Carlo.

Parte dessas investigações policiais já vazaram para a mídia e os parlamentares questionam a postura do presidente da comissão, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), sobre a manutenção do sigilo dos documentos que já foram até divulgados pelos meios de comunicação.

"Faremos conferência entre originais e o que está divulgado. Se houver coincidência de documentos não há sentido a manutenção do sigilo", disse o relator, acrescentando que essa é uma posição pessoal.

Nas próximas semanas, a CPI deve pedir formalmente ao relator da investigação relacionada às operações Vegas e Monte Carlo no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Levandowski, o fim do sigilo dos relatórios policiais.

GURGEL

O relator da CPI aumentou a pressão para que o procurador-geral, Roberto Gurgel, explique aos membros da comissão porque não apresentou denúncia à Corte pedindo investigação dos parlamentares citados na operação Vegas, concluída em 2009.

A PF afirmou que havia indícios naquela época de que os deputados Carlos Leréia (PSDB-GO) e Sandes Júnior (PP-GO) e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) faziam parte da organização criminosa de Cachoeira. Porém, a Procuradoria-Geral da República preferiu não levar o caso ao STF.

"Em relação à operação Vegas, o procurador teve um papel nessa operação. Ele recebeu os autos dessa operação. Então, também estamos tratando de como foi tratada a operação Vegas. Logo está dentro do objetivo nosso na CPI", disse o relator.

Gurgel disse que está impedido juridicamente de ir ao Congresso, porque se conceder um depoimento será arrolado como testemunha num caso que poderá figurar como acusador.

Nesta quarta-feira, porém, o procurador-geral afirmou que seus críticos estavam agindo para defender pessoas acusadas no processo do mensalão, o que deve aumentar o debate político em torno da convocação do procurador-geral à CPI.

MÍDIA

O relator não deixou de citar a relação da imprensa com Cachoeira. Há pressões por parte da bancada do PT e de outros parlamentares para convocar jornalistas. Cunha argumentou que vai investigar todas as pessoas que tiveram relação sistemática com Cachoeira e, por isso, não pode deixar de investigar as relações dele com a mídia.

"Vamos investigar condutas. Não da mídia. Possivelmente de jornalistas. Ou, jornalista... Veja, tem diferenciações. Teve jornalista que foi pego em encontros fortuitos uma vez, duas vezes. Outro teve relação sistêmica com o principal investigado. E como isso é tratado de maneira explícita no inquérito nós não podemos fazer de conta que esse assunto não existe", explicou.

Mais conteúdo sobre:
POLITICACUNHAENTREVISTA*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.