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Relatório da ONS não deve sugerir obras para evitar novo apagão

Diretor-geral da ONS diz que ''prevenir apagão como o que ocorreu é antieconômico'' e que 'nenhum país faz isso''

Entrevista com

Nicola Pamplona, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ainda não havia concluído o relatório sobre o apagão do último dia 10, que atingiu 18 Estados brasileiros, mas o diretor-geral da entidade, Hermes Chipp, adiantou ao Estado que dificilmente vai sugerir obras para evitar a repetição do incidente. "Teria de fazer praticamente um sistema redundante. É antieconômico", afirmou Chipp, que passou o feriado da Consciência Negra na sede do ONS trabalhando no documento que deve ser entregue amanhã ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico.

O executivo já havia adiantado que três curtos-circuitos quase simultâneos provocaram o desligamento das linhas que trazem energia de Itaipu.

Segundo ele, o incidente tem pouca probabilidade de acontecer, o que elimina a justificativa para investimentos de grande porte.

Chipp defendeu ainda que o Brasil altere o critério de segurança, analisando os investimentos em reforço da rede de acordo com o impacto econômico que a falta de energia pode trazer. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Já concluíram o relatório? Será entregue na segunda-feira mesmo?

Estamos trabalhando no relatório, segunda-feira é uma expectativa que eu coloquei. O relatório será entregue para o grupo que foi criado no âmbito do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico e, depois, será encaminhado para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Há alguma indicação de que é preciso reforçar o sistema?

Não se projeta sistema para esse tipo de ocorrência (do apagão de terça-feira), de probabilidade muito remota. Nenhum país do mundo faz isso. Até porque teria de fazer praticamente um sistema redundante. É antieconômico, não se planeja isso. Agora, eu acho, que independentemente dessa ocorrência, nós podemos avançar para critérios de planejamento em pontos estratégicos do sistema, em função da gravidade do impacto de uma contingência. Por exemplo, você pode, com investimento adicional, passar a suportar contingências duplas (como a queda simultânea de duas linhas, por exemplo), desde que o impacto justifique o investimento.

De que tipo de investimento o sr. fala?

Pode ser a duplicação de uma linha, um reforço em subestação. Mas não nesse caso (do apagão) porque aquele sistema já suporta contingência dupla. Veja bem: de 2000 a 2009 ocorreram nove contingências triplas, só que com curtos-circuitos com intervalos de tempo entre um e outro sempre superior a três segundos e, provavelmente, não tão próximos a uma subestação. Não aconteceu nada com o sistema, porque é como se você desse no sistema três pancadas distintas e desse tempo para ele se recuperar entre cada uma delas. Agora não, é como se fossem as três ao mesmo tempo. Não se planeja para isso.

O último apagão levou a um plano de reforço dos equipamentos de ilhamento do sistema. Eles foram feitos?

Olha só, tem outra coisa que está sendo colocada por generalistas, que não é bem assim. Você vai entender o que eu vou dizer: você está operando em regime normal, o sistema está normal, nada está acontecendo. Aí tem uma contingência. A tensão pode cair mais rapidamente ou menos rapidamente. Quando cai rapidamente, como nessa contingência e nos blecautes de 2002 e 1999, ocorre um fenômeno que a gente chama de colapso de tensão, quando a tensão vai a zero ou quase zero. E o mergulho da tensão é uma curva muito íngreme, muito rápida. Não dá tempo de fazer ilhamento. Quando a tensão cai lentamente, você persegue o ilhamento, porque ainda está em condições de tensão para que essa ilha se mantenha. Não vou dizer para você que não possamos fazer nada a partir dessa experiência, nós sempre investigamos para minimizar o efeito dominó. Agora, pela velocidade em que a tensão caiu, é pouco provável conseguir. Temos três metas fundamentais: a primeira delas é trabalhar preventivamente para que esse evento não ocorra novamente. A segunda é, uma vez ocorrido, como minimizar o efeito dominó. A terceira é reduzir o tempo de recomposição.

Então, evitar não é possível...

Para essa contingência, o tipo de evento que ocorreu, se eu tiver alguma indicação de que se pode tomar alguma medida com relação a isolamento, ou proteção adicional para a descarga elétrica, vai ser feito. Agora, ocorrido esse evento, que é de probabilidade baixíssima, se não tiver nenhuma medida preventiva para você evitar... Embora de probabilidade remota, se aconteceu uma vez quer dizer que pode se repetir. Se o relatório indicar que é preciso fazer alguma coisa preventivamente, faremos. Se tiver indicação de que podemos evitar o efeito dominó ou melhorar o tempo de recomposição, também faremos.

E já há alguma recomendação nesse sentido?

Não, não tem, por enquanto não tem. Acredito que, até o segundo segmento, que é o ilhamento, é pouco provável (sugerir medidas), dada a rapidez do colapso de tensão.

E quanto ao tempo de volta?

Quando você relativiza com relação aos outros países, nosso tempo de volta é, em média, menor. Porque é um sistema com dimensão continental, transmissão a longas distâncias. Então, relativamente aos outros países que tiveram blecaute, tivemos um tempo de recomposição menor. Mas não significa que a gente se sente confortável com isso, a gente vai sempre perseguir um tempo menor.

Há especialistas que sugerem a operação de térmicas na base para reduzir a dependência de Itaipu. Faz sentido isso?

Não, nenhum sentido. Você jamais vai impor ao consumidor... Há um mês, eu fui chamado lá na CPI para explicar os Encargos de Serviço do Sistema (taxa cobrada na conta de luz que paga, entre outras coisas, o uso das térmicas), porque nós geramos térmicas para manter o nível-meta (dos reservatórios das hidrelétricas). Todo mundo falando que não quer pagar, não pode pagar. Mas eu digo: "Paga porque o custo do racionamento - e estou falando em racionamento e não em blecaute - é impagável". Agora, gerar térmica para manter o carregamento naquele sistema de 750 kV, que representa cerca de 4 mil megawatts (MW) para ficar esperando uma contingência dessa, de baixíssima probabilidade, é absurdo.

Quando o sr. fala em probabilidade remota, dá para se mensurar? É uma chance em quanto?

Não, não dá. Você não tem idéia do que foi esse curto. Nem gosto de falar nisso. Esse curto que aconteceu não tem nos livros. Três curtos monofásicos, que evoluíram para trifásico, pela proximidade da estação... Isso não existe, foi uma contingência totalmente atípica. Diferentemente do apagão de 1999, esse se espalhou para outras regiões do País.

Isso é um efeito da maior interligação? Tem como evitar?

Em um blecaute com origem muito mais severa como esse, em relação aos outros dois, o sistema Sul ficou intacto e os sistemas Nordeste e Norte, praticamente intactos. Isso foi outra confusão que fizeram. O sistema Sudeste ficou metade ligada e metade apagada. No fundo, esse fenômeno de efeito dominó só afetou quatro estados de maneira significativa: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte de Minas Gerais, uns 20%, além do Mato Grosso do Sul. Nos outros Estados, foi atuação do esquema regional de alívio de carga. Esse sistema atua quando há um desequilíbrio entre carga e geração acima de um determinado montante. Todas as distribuidoras contribuem com uma parte (cortando demanda para equilibrar com a carga). Foi uma questão de geração. Pela natureza do impacto do efeito dominó, quatro Estados se afetaram significativamente. O resto foi uma questão de perda de geração. Com um evento muito mais severo, caiu menos nas outras regiões do que na Região Sudeste. Isso significa que o sistema está bem mais robusto do que antes.

É certo que o sistema tinha dependência excessiva de Itaipu naquele momento?

Não. Ela sempre opera com essa carga nessa época do ano, quando está com reservatório cheio e vertendo. A gente explora mais as usinas que estão com os reservatórios cheios, se não tiver nenhum problema de segurança, para poder reduzir o investimento em energia. Nós estávamos com valores bastante folgados suportando inclusive contingência dupla.

O Plano de Ampliações e Reforços (PAR) da rede de transmissão identifica algum ponto crítico na rede?

Não, não. São obras de reforço na segurança para atender aos padrões de desempenho. Nem PAR nem PET (Plano de Expansão da Rede de Transmissão) indicam obras para evitar esse tipo de contingência, é antieconômico. Isso é em qualquer país do mundo, não é só no Brasil. Nem nos países mais desenvolvidos da Europa, na Ásia, não fazem isso. Nem os dois operadores americanos, cada um com carga de 160 mil MW, fazem isso. Ninguém faz isso.

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