Repaginado, Cine Marabá reabre e resgata o glamour

A partir de abril, cinema chique da década de 1950 volta à ativa com sessões comerciais

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2009 | 09h49

Era para ser um restauro rápido, coisa de três meses, quatro talvez, no máximo um semestre. Mas, como toda promessa de reforma em São Paulo, o projeto de revitalização do histórico Cine Marabá atrasou (e muito), à espera de todas as aprovações burocráticas na Prefeitura, dos prazos cada vez mais esticados dos engenheiros e da tão propagada renovação do centro da capital. Depois de 20 meses totalmente fechado - e ainda sem a definição de como será possível reerguer a zona central da cidade, de como oferecer segurança às pessoas e de como trazer mais moradores para a área -, o Marabá promete finalmente abrir as portas no mês que vem para tentar encontrar algumas dessas respostas.

"O projeto serve para mostrar que a revitalização do centro só poderá existir por meio da cultura. Espero que seja um passo importante para a região retomar sua importância", diz o arquiteto Ruy Ohtake, que começou a esboçar as primeiras linhas da reforma do cinema para o grupo Playarte ainda em 1999. Inaugurado em 17 de maio de 1945 com o filme Desde que Partiste, clássico com Shirley Temple e Claudete Colbert, no número 757 da Avenida Ipiranga, o Marabá teve de passar por uma enorme reformulação para abrigar o público atual dos multiplexes. No lugar da sua gigantesca sala de 2.720 metros quadrados com 1.438 lugares, contando as poltronas da plateia e do balcão, o lugar agora terá cinco salas menores, todas ovais, com capacidades que variam de 120 a 450 pessoas.

O problema do falta de vagas de estacionamento (e da falta de garagens subterrâneas, projeto da Prefeitura que está há seis anos no papel) será resolvido com um valet na porta. Já para não ferir os preceitos do tombamento do endereço, determinado ainda na década de 1990 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de São Paulo (Conpresp), vários elementos arquitetônicos tiveram de ser preservados. A fachada do Marabá no estilo eclético, com seus ornamentos rendilhados, foi um deles. O hall, com paredes revestidas com mármore de Carrara e colunas que alcançam até o mezanino, também foi totalmente restaurado.

"A fachada e o hall do Marabá são muito detalhados, delicados, então o restauro acabou demorando por ter sido feito de forma muito rigorosa", diz Ohtake. "Mantivemos todos esses elementos importantes do cinema, como o pé direito duplo e parte da plateia. De resto, tentei fazer um projeto lúdico, com salas ovais, até para aproveitar o espaço e fazer algo moderno."

Cinelândia

Nas décadas de 1950 e 1960, o Cine Marabá era um dos lugares mais chiques do centro, onde o uniforme obrigatório era black-tie e vestido longo. Ali foi lançado Caiçara, o primeiro filme da Vera Cruz, em uma noite de gala. Nas décadas de 1980 e 1990, o Marabá continuou ativo, agora com predileção por filmes de ação, se tornando o segundo cinema do País em bilheteria, perdendo apenas para o Cine Brasil, de Belo Horizonte.

Com as portas reabertas agora em abril (a Assessoria de Imprensa da Playarte promete para a primeira quinzena), o Marabá também poderá servir de testamento de uma época em que reinavam espaços extremamente requintados e hoje extintos, como o Cine Marrocos, o Comodoro, o Art-Palácio, o Paissandu, o Paulistano... "O Marabá merece o esmero, ele foi construído na época áurea da Cinelândia, quando havia 14 cinemas ali. Foi um dos únicos que sobreviveram", conta Ohtake, ansioso por ver seu projeto finalmente ganhar vida. "O centro precisa justamente resgatar a importância de locais como esse."

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